Cradle Of Filth - The Screaming Of The Americas Tour
Abertura: Uada

 Quinta, 21 de agosto de 2025
Estúdio Mirage Eventos em Limeira/SP
  

Inferno em Limeira

    Creio que em 2025 estamos vivendo o ano mais pesado em Limeira/SP por conta dos shows direcionados ao Thrash, Death e Black Metal realizados com as apresentações de nomes como Left To Die ( veja matéria ), Rotting Christ ( saiba como foi ), Dark Funeral ( relembre aqui ), Ancient, Skeletal Remains ( confira aqui ) e o magnífico show do Testament ( confira os detalhes neste link ). Todavia, tivemos algumas exceções com bandas e nomes do Power Metal, Hard Rock, Symphonic Metal e Heavy Metal como foram os casos de Fabio Lione, Eric Martin e Jeff Scott Soto ( leia matéria ), Tim "Ripper" Owens ( confira como foi ) e Sirenia.

    E vale dizer que somente cinco dias após o Testament abalar as estruturas do Estúdio Mirage Eventos pela primeira vez na história foi a vez de outros dois nomes extremos debutarem em Limeira: a já clássica banda inglesa Cradle Of Filth de Black Metal Sinfônico formada Suffolk em 1991 e a banda norte-americana Uada de Black Metal denso e melódico com origem em Portland em 2014.

    Mais uma vez - a já tradicional casa de shows do interior - estava novamente pronta e muito cheia para recepcionar estes dois shows pesadíssimos sendo que teríamos nesta quinta feira 21 de agosto de 2025, o primeiro show da The Screaming Of The Americas do Cradle Of Filth, turnê de suporte ao álbum The Screaming Of The Valkyries, o décimo quarto da carreira dos ingleses, que saiu pela Napalm Records e aqui pela Shinigami Records.

Uada

Escuridão e timbres atmosférica e profunda

    Mesmo sendo uma quinta feira, os fãs compareceram em peso para conferirem aos shows e logo após a casa abrir as portas, o público tomou conta de quase todos os espaços disponíveis comprovando um ponto que já ressaltei em outras matérias das coberturas que fiz em Limeira: a força dos headbangers do interior, que mostram para os gringos o nosso potencial ao encher uma casa como o Estúdio Mirage Eventos.

    Para que todos pudessem entrar e acomodarem-se com tranquilidade, a Circle Of Infinity Produções só deu a "ordem" para que o Uada subisse no palco 20 minutos após o previsto de forma que o quarteto norte-americano formado por Jake Superchi nos vocais e guitarra, Nate Verschoor no baixo, Josh Lovejoy na bateria e Rob Shaffer na guitarra começassem o seu show às 20hs.

    E assim quando o Uada ocupou seus postos, vimos que seus integrantes estavam todos de preto e com capuzes ocultando os seus rostos de forma que apenas pudemos ver suas mãos e seus longos cabelos, exceção feita apenas para o baterista Josh Lovejoy que foi possível ver o seu rosto, e isso, dependendo da luz, pois, eles colocaram luzes brancas e piscantes direcionadas para o público e só... Por mais estranho que possa parecer, esse tipo de apelo visual era a proposta obscura de seu show, e pensa que alguém reclamou? Pelo contrário, os fãs imergiram em seu Black Metal opaco e devidamente sombrio.

    Eles abriram o set com climatizações melancólicas que não demorou muito para que as partes dilacerantes de Natus Eclipsim tomassem conta da casa, pois, eles enviaram um Black Metal monstruoso com esta canção do primeiro disco, o Devoid Of Light de 2016 deixando claro a tônica do que seria sua apresentação. O detalhe é que... mesmo com o fortíssimo peso da música, o Uada aplicou linhas envolventes que te colocavam para dentro do show... te faziam ficar ligado no que estava acontecendo em cada riff, a cada virada na bateria, a cada urro, enfim, os caras roubaram a cena neste início de noite.

    Uma pequeníssima pausa concedeu o lugar para a segunda da noite com a acelerada Blood Sand Ash, que embora seja tão insana e violenta quanto a primeira, pudemos perceber um aceno Melódico em seu decorrer e nesta música gravada no Cult Of Dying Sun de 2018, os vocais de Jake Superchi foram ainda mais urrados e embrutecidos. A terceira foi a canção título do terceiro álbum de estúdio, que foi lançado em 2020 com a sinistra Djinn, que é dotada de vocais guturais absurdos e uma linhagem onde as guitarras ditam o caminho deste Black Metal, que provocaram os primeiros "hey...  hey... hey..." dos fãs e muitos aplausos em seu final.

    Entre uma lufada de fumaça e outra, sem falar nada com os fãs, apenas erguendo as mãos em agradecimento à vibração feita pela plateia, o quarteto que ficou de costas para nós, seguiu o set com a horripilante Retraversing The Void do Crepuscule Natura, o mais recente álbum do Uada que foi lançado em 2023 e despejaram toda a fúria contida nesta composição que exibiu riffs de guitarras voltados ao Heavy Metal tradicional feito por estes "espectros do anel" ( sim... olhando neles você tinha a amedrontadora visão dos fantasmas negros vistos na trilogia O Senhor dos Anéis ), porém, sempre alternando as atmosferas robustas e os vocais urrados entre eles.

    O tom de culto macabro deste show ficou ainda mais evidente quando o Uada executou a seguinte, que foi a lenta e arrastada Cult Of Dying Sun, título de seu segundo disco de estúdio e notei um mergulho no Doom Metal, todavia com elevados níveis de distorção, aliás, altíssimos, produzindo um Black Metal obscuro de vocais consideravelmente enraivecidos ocasionando uma sonoridade tal como se o mundo fosse acabar diante de nossos olhos ( a trilha sonora para isso foi exibida com primor pelo Uada nesta música ). Muito interessante é como a música ganhou corpo nos riffs de guitarras e envolveu todos nós completamente até o seu final, que obviamente gritamos em retribuição para a banda.

    Eles encerraram os seus cinqüenta e dois minutos de show com a execução da densa, carregada e lúgubre pancada contida em Black Autumn, White Spring, que é pertencente ao Devoid Of Light e que ganhou vários "hey... hey... hey..." dos fãs e o vocalista Jake Superchi foi quem mais se movimentou no palco, os outros dois Rob Shaffer na guitarra e Nate Verschoor no baixo limitavam-se apenas à erguer os instrumentos, entretanto, angariaram novos fãs após este show em Limeira e fizeram a alegria dos que ansiavam por vê-los pela primeira vez.

Set List do Uada

1 - Natus Eclipsim
2 - Blood Sand Ash
3 - Djinn
4 - Retraversing The Void
5 - Cult Of Dying Sun
6 - Black Autumn, White Spring

Cradle Of Filth

Luzes, cores e sonoridades malignas

    Foi por volta das 21:15, que o palco do Estúdio Mirage Eventos estava pronto para que o Cradle Of Filth desse início ao primeiro de seus três shows no Brasil diante de uma plateia com muitas mulheres e muito bonitas por sinal, todas com um visual mais voltado ao estilo gótico, um que faz parte da temática abordada pelos ingleses, que nesta noite tinha o seguinte line up: Dani Filth nos vocais, Donny Burbage e Marek 'Ashok' Smerda nas guitarras, Martin Skaroupka na bateria, Daniel James Firth no baixo e Zoe Marie Federoff nos teclados e backing vocals, e todos com suas maquiagens sombrias.

    Durante a sinistra introdução, com luzes vermelhas, os membros da banda entraram no palco e por último, o líder, Dani Filth, que veio encapuzado, tirou o capuz e disparou a To Live Deliciously, canção do recente The Screaming Of The Valkyries, que foi uma paulada Black Metal Melódica com vocais rasgados e um ritmo acelerado, que foi quebrado nos vocais líricos de Zoe Marie Federoff.

    Além dos agudos intimidantes, Dani Filth caminhou bastante pelo palco contagiando e colocando o público em suas mãos. E deu para literalmente sentir de perto o poder desta nova composição da banda com destaque também para os solos de guitarras feitos por Donny Burbage e Marek 'Ashok' Smerda ( cuja maquiagem foi inspirada personagem Pinhead do conhecidíssimo do filme Hellraiser ).

     Muito interessante são as caretas que Dani Filth fez no término desta primeira música ( aliás, durante o show todo ) e deste modo ele demonstrou muito carisma comandando a apresentação com tranquilidade sempre mirando o microfone para nós ou as mãos pedindo nossa participação, na forma que solta seus berros e agudos, em suma, um verdadeiro showman.

    Após, exibir o último álbum, um recuo ao princípio com o Black Metal cru e também rápido presente no caos chamado The Forest Whispers My Name, que foi gravada no primeiro disco da banda, o The Principle Of Evil Made Flesh de 1994, e aí o clima obscuro e demoníaco tomou conta do Estúdio Mirage Eventos com os vocais urrados e rasgados de Dani Filth sendo contrastados pelos líricos de Zoe Marie Federoff, que nas partes faladas parecia uma bruxa amaldiçoando os seus seguidores. Além de conduzirem muito bem seus instrumentos, Donny Burbage, Zoe Marie Federoff e Daniel James Firth bangeavam sem parar girando seus cabelos.

    Ovacionados pelo público, Dani Filth realizou a sua primeira intervenção com os fãs, saudou todos e veio para cima com a cadenciada, destruidora e melódica She Is a Fire do Trouble And Their Double Lives de 2023, cujos vocais alternaram momentos rasgados, urros e agudos, sempre com o olhar de cólera do vocalista e de todas as suas caras de bocas.

    Bastante aplaudidos, o Cradle Of Filth, através de seu vocalista, que gritou "Make some noise Limeiraaaaa" e em poucas palavras introduziu a próxima música do set, que foi a aterrorizante e cadenciada Malignant Perfection, que contou com uma linhagem melódica, que forneceu mais corpo à seu padrão 'filme de terror' a esta canção do The Screaming Of The Valkyries.

    O detalhe é que aliado à isso, a banda - entre vários dedilhados e aquelas partes típicas do Black Metal - aplica um formato Heavy Metal devidamente contagiante. E complementando... haja fôlego para os longos agudos que Dani Filth aplicou em cada canção, ainda mais dentro de uma roupa toda 'encouraçada' como ele esteve nesta noite, pois, estava calor e com essas vestimentas então...ufa...

    Dani Filth nos convidou se lembramos de quando a banda começou em 1992, época que compôs The Principle Of Evil Made Flesh, que concedeu o título ao primeiro álbum da banda e tivemos simplesmente uma hecatombe musical dentro do Estúdio Mirage Eventos com uma das canções mais poderosas e apavorantes do Cradle Of Filth para fã nenhum de Metal Extremo ousar colocar defeito.

    Mesmo os vocais líricos da tecladista Zoe Marie Federoff não apaziguam a violência que esta música é possuidora, o que é ótimo, pois, adoramos ver a banda exibindo este clássico de sua carreira com tanta ira. Inclusive, Zoe Marie Federoff e Daniel James Firth provavelmente ficaram com os pescoços doloridos de tanto que bangearam.

    Dani Filth nos aplaudiu, bradou um "obrigado" e após algumas urrar palavras foi a vez da Sinfônica Heartbreak and Seance, que já explode em um grito agudíssimo, solos de guitarras encorpados e uma sucessão de urros e agudos entremeados com sua linhagem Melódica executada à toda velocidade pela banda, que pareciam que os portais do inferno foram abertos nesta música do Cryptoriana: The Seductiveness Of Decay, que foi lançado em 2017.

    Enquanto os músicos rapidamente tomaram uma água, a tecladista Zoe Marie Federoff trouxe as notas e os vocais iniciais de um clássico da banda e que é muito esperado por todos com a Nymphetamine ( Fix ), um dos sucessos do lado mais Symphonic Metal do Cradle Of Filth, mas, claro, sem deixar de lado os vocais guturais inerentes ao Black Metal e também aqueles longos agudos característicos, além dos solos de guitarras marcantes. Inclusive, muitos fizeram questão de cantar seus versos com a banda.

    Adorando nossa atuação e nossas palmas, Dani Filth apenas gritou "Make Some Noiiiise" e berrou: "Born in a Burial Gown", um Black Metal mortífero que foi o praticamente imparável representante do EP do Bitter Suites Of Succubi de 2001 repleto de urros, bem, um verdadeiro soco na cara sonoro de todos nós. Aos gritos de "Cradle... Cradle... Cradle..." foi a hora da mescla entre uma canção matadora nos vocais de Dani Filth e que foi suavizada na voz lírica de Zoe Marie Federoff na White Hellebore do The Screaming Of The Valkyries com um sequencia de solos de guitarras, bateria e baixo incansáveis, que finalizou a primeira parte do show.

    Antes da volta para o palco do Cradle Of Filth tivemos uma longa introdução, na verdade um medley com a Creatures That Kissed In Cold Mirrors do Midian de 2000 e a The Monstrous Sabbat ( Summoning The Coven ) que saiu no Hammer Of The Witches, e como o padrão, totalmente assustadora que conduziu para a Cruelty Brought Thee Orchids entre luzes verdes e roxas. Enquanto não era a hora de tocarem seus instrumentos, Donny Burbage e Daniel James Firth tiveram um momento de descontração ao tomarem uma cerveja e oferecerem para nós e Dani Filth voltou sem sua armadura, apenas com uma blusa preta e um elegante colete.

    E então, após o breve pronunciamento feito por Zoe Marie Federoff tivemos finalmente a poderosa e agressiva composição do Cruelty And The Beast de 1998 unida a todos os agudos, aos vocais rasgados e aos urros proferidos pelo caricato vocalista e sua mescla de Heavy Metal e muita melodia, que resultaram em muitos aplausos para a banda, enfim, era como se fosse um novo show.

    Ainda deu tempo para mais duas do Midian com a opressiva Death Magick For Adepts, em que tivemos a presença de um cidadão mascarado fazendo as narrações em meio ao seu Black Metal devastador e a esmagadora Her Ghost In The Fog que terminou o show em uma noite em que as forças do mal reinaram em Limeira com nossos gritos no título da música quando o vocalista solicitava. Nos instantes finais, Dani Filth nos agradeceu pela apresentação, nos aplaudiu de volta e pediu mais vibração de todos antes da foto que imortaliza a sua presença em Limeira com todos nós ao fundo.

    Em resumo: mais outra noite que entrou para a história do Heavy Metal, e em especial, para o Black Metal em Limeira, não só porque o show foi muito bom superando as expectativas, mas, também porque vimos um dos últimos shows deste line up do Cradle Of Filth antes das discussões que levaram à saída Marek 'Ashok' Smerda e Zoe Marie Federoff da banda. Até me indago quais foram os motivos: relacionamento entre os músicos? salário? Bem muitas declarações de ambos os lados estão acontecendo, mas, isso fica para você acompanhar na seção de notícias.

    O que importa aqui é que o Cradle Of Filth entregou um show devidamente aniquilador em uma hora e vinte minutos nesta noite com a banda se dedicando ao máximo para nos impressionar, e bem, conseguiram, pois, saímos de lá plenamente satisfeitos.

Texto e fotos: Fernando R. R. Júnior
Agradecimentos à equipe da Circle Of Infinity Produções
pela oportunidade, atenção e credenciamento
Setembro/2025

Set List do Cradle Of Filth

1 - Intro
2 - To Live Deliciously
3 - The Forest Whispers My Name
4 - She Is a Fire
5 - Malignant Perfection
6 - The Principle Of Evil Made Flesh
7 - Heartbreak and Seance
8 - Nymphetamine ( Fix )
9 - Born In a Burial Gown
10 - White Hellebore

Encore:
11 - Creatures That Kissed In Cold Mirrors / The Monstrous Sabbat ( Summoning The Coven )
12 - Cruelty Brought Thee Orchids
13 - Death Magick For Adepts
14 - Her Ghost In The Fog

Galeria de 95 fotos do show do Cradle Of Filth e do Uada
no Estúdio Mirage Eventos em Limeira/SP

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