Best Of Blues And Rock - 12ª Edição
 Deep Purple
Abertura: Judith Hill e Hurricanes
Parque do Ibirapuera - São Paulo/SP
Domingo, 15 de junho de 2025
   

    No último dia da 12ª Edição do Festival Best Of Blues and Rock foram escaladas as seguintes atrações: os ingleses Deep Purple em sua única apresentação neste ano na América do Sul, a norte-americana Judith Hill e a banda brasileira Hurricanes.

    E mesmo o Deep Purple sendo uma presença frequente no Brasil, cada vez que passam por aqui levam um grande número de presentes em seus shows.

    Só nos últimos anos, eles estiveram duas vezes: em 2024 ( veja matéria ) e em 2023 no Monsters Of Rock ( confira detalhes ). Ou seja, o público brasileiro aprecia mesmo as músicas dos ingleses, que foram acrescidas desde o ano passado com as canções do excelente álbum =1, que a banda ainda faz a sua promoção.

Hurricanes

    O Hurricanes foi a banda de abertura do festival e chegaram com tudo. Formada por Rodrigo Cezimbra ( vocal ), Leo Mayer ( guitarra ), Henrique Cezarino ( baixo ) e Guilherme Moraes ( bateria ) com origem  em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, e hoje baseada em São Paulo, a banda aposta em um Rock autoral com cara de Clássico - daqueles que te pegam pelo som cru e pela entrega sincera.

    O setlist trouxe composições dos álbuns Hurricanes ( 2023 ) e Back To The Basement ( 2024 ), como "Penny In My Pocket", "Over The Moon" e "Come To The River" - todas do mais recente trabalho.

    Também apareceram músicas do primeiro disco, como "Waiting", "Weary Hearted Blues", "Devil’s Deal" e "Thunder In The Storm", além de "Flowers" e "The Bird’s Gone", lançadas antes como singles. O encerramento ficou por conta de uma versão carregada de emoção de With a Little Help from My Friends composta por Joe Cocker, mas eternizada na versão dos Beatles e a escolhida por eles neste fim de tarde de domingo.

    Bastaram os primeiros acordes para perceber que o som era verdadeiro. A guitarra vinha com pegada setentista, o vocal era rasgado e cheio de alma, e a base rítmica - baixo e bateria - mantinha tudo pulsando forte. O estilo mistura Blues Rock, Psicodelia e Hard Rock com uma vibe moderna, sem perder a raiz. Dá para sentir a influência de gigantes como Led Zeppelin e Deep Purple, porém, com uma assinatura própria.

   Mesmo sem conhecer muito sobre eles antes do festival, foi fácil se deixar levar. Eles não soam como cópia de ninguém - têm identidade. Isso se reflete no som, no visual, na atitude. Figurino retrô, instrumentos com timbre encorpado e uma presença de palco cheia de verdade.

    A entrega do Hurricanes foi vibrante. Tocaram com paixão, com energia de quem quer mostrar a que veio. A plateia respondeu de imediato: muita gente dançando, batendo cabeça, se conectando.

    Ver uma banda brasileira fazendo Rock autoral desse jeito dá esperança. O Hurricanes mostrou que ainda existe espaço - e público - para música feita com alma, peso e autenticidade. Se continuarem nesse caminho, é só questão de tempo até se tornarem um dos grandes nomes da cena.

 

Set List do Hurricanes

1 - Penny In My Pocket
2 - Over The Moon
3 - Waiting
4 - Come To The River
5 - Weary Hearted Blues
6 - The Bird’s Gone
7 - Flowers
8 - Devil’s Deal
9 - Thunder In The Storm
10 - Through The Lights
11 - With a Little Help From My Friends

Judith Hill

    Antes mesmo da primeira nota ecoar, algo em Judith Hill já anunciava que o momento seria inesquecível. Há artistas que cantam, há artistas que performam - mas Judith Hill... ela sente. Ela vive a música em cada músculo do corpo, em cada olhar atravessado, em cada silêncio. E isso era visível desde o instante em que pisou no palco.

    Filha de uma pianista japonesa clássica e de um baixista Funk afro-americano, Judith Hill cresceu cercada de música. E é justamente com seus pais ao lado que ela se apresenta - sua mãe, Michiko Hill no teclado, e seu pai Robert “Pee Wee” Hill no baixo. Mais do que uma banda, o que se via ali era uma família pulsando música em perfeita harmonia, criando uma atmosfera íntima, potente e mágica.

    O show começou em chamas com I Can Only Love You By Fire, uma explosão emocional que fala sobre amar com intensidade, mesmo que doa. Judith Hill entregou tudo logo de cara nesta música do Golden Child de 2018.

    Sem perder o calor emendou Fire, um cover poderoso do Ohio Players e transformou a música em um ritual de Goove e presença. A energia era tão forte que parecia que todo o Parque do Ibirapuera estava vibrando com ela.

    Na sequência veio Gypsy Lover, outra do Golden Child e esta é mais introspectiva, quase como um filme em câmera lenta. A música falava sobre amar alguém que não se prende. E ela interpretou com tanta firmeza e delicadeza que o silêncio do público virou parte da música.

    E então veio o trem - literalmente - com a Runaway Train - single de 2023 que saiu depois no álbum Letters From a Black Widow em 2024, que chegou com batidas pesadas e um ritmo que parecia empurrar todo mundo para frente. Era sobre seguir em frente sem olhar pra trás e Judith Hill parecia incorporar essa força em cada movimento.

    Burn It All do Baby, I'm Hollywood de 2021 foi pura libertação. Uma música para jogar tudo para o alto e recomeçar. Rock, Soul e um desabafo que parecia coletivo. Todo mundo se mexia, como se ela estivesse falando por nós.

    Logo depois, veio a delicadeza dolorida de Give Your Love To Someone Else. Esta outra música do Baby, I'm Hollywood era sobre saber que o amor acabou, mas não conseguir parar de amar. Judith Hill cantou com o coração na garganta e dava para sentir que ninguém saiu ileso.  

    A transição para Dame De La Lumière do recente Letters From a Black Widow foi cantada em francês e foi quase mágica. Ela parecia uma entidade luminosa no palco com um ar místico e envolvente. Tudo parecia leve e intenso ao mesmo tempo.

    Com Flame, que também percente ao Letters From a Black Widow, ela reacendeu a própria força. Uma música sobre resistir, sobre carregar o fogo dentro mesmo quando tudo ao redor é cinza. Foi quase um hino de empoderamento e ela olhava para gente como quem dizia: "você também é chama".

    Ainda no Letters From a Black Widow tivemos You Got It Kid, que chegou como um abraço. Uma pausa doce, um respiro cheio de afeto. Como se ela dissesse: vai ficar tudo bem. E para encerrar, veio Cry, Cry, Cry do Back In Time de 2015 e Judith Hill cantou com a alma aberta. Era dor, era entrega, era cura.

    Quando terminou, o silêncio da plateia disse tudo: foi profundo, foi real, foi inesquecível. Judith Hill não faz apenas um show. Ela entrega uma experiência inteira. Quem esteve ali viu mais do que uma cantora. Viu uma mulher feita de fogo, alma e verdade.

Set List de Judith Hill

1 - I Can Only Love You By Fire
2 - Fire
3 - Gypsy Lover
4 - Runaway Train
5 - Burn It All
6 - Give Your Love To Someone Else
7 - Dame De La Lumière
8 - Flame
9 - You Got It Kid
10 - Cry, Cry, Cry

Deep Purple

    Minha primeira vez em um show do Deep Purple. Nem sabia muito bem o que esperar. Eu conhecia os clássicos, claro, mas nunca fui uma fã de carteirinha. Só que bastaram os primeiros minutos para entender que eu estava diante de algo grande - e saí de lá completamente impactada.

    Tudo começou com o palco escuro e aquele silêncio de quem sabe que algo importante está prestes a acontecer. Foi quando começou a tocar Mars, The Bringer Of War, uma música instrumental pesada, meio épica, que parece trilha de filme. No telão, tons de roxo surgiam aos poucos até formar o nome Deep Purple. E aí eu soube: aquilo ia ser inesquecível.

    Antes do show, rolou uma entrevista descontraída com a banda. Perguntaram sobre o setlist e eles disseram que adoram tocar as músicas novas, mas que os clássicos são indispensáveis - afinal, sem eles, não haveria show. O baterista Ian Paice comentou que o segredo está em equilibrar os dois lados. E olha, conseguiram. Além dele estavam na coletiva o baixista Roger Glover, o guitarrista Simon McBride e o tecladista Don Airey, sendo que somente o vocalista Ian Gillan não compareceu.

    A primeira música foi Highway Star do histórico Machine Head de 1971 e aí não teve volta: o público foi à loucura. Bateria marcando forte, baixo pulsando, guitarra cortando o ar e os vocais poderosos de Ian Gillan do alto de seus quase 80 anos. Foi como uma viagem no tempo com o som vibrando no corpo.

    Depois veio A Bit On The Side, que é nova do recente =1 ( de 2024 ) e eu não conhecia, mas adorei. Tem peso, tem atitude, tem humor. A banda estava super entrosada, e dava para ver que eles se divertem tocando coisas recentes.

   Na sequência veio Hard Lovin' Man do In Rock de 1970, que é pesada e rápida, daquelas que arrepiam. A bateria parecia um motor acelerando e a plateia foi junto. Em seguida tivemos outra das formidáveis canções do In Rock com a Into The Fire e logo depois o palco ficou só para Simon McBride, o guitarrista. Ele fez um solo lindo, construído com calma, sentimento e muita técnica. Foi daqueles momentos que a gente sente no peito.

    Logo depois veio Uncommon Man do Now What de 2013, que foi uma homenagem linda e emocionante ao ex-tecladista Jon Lord, que nos deixou em julho de 2012 ). O atual tecladista, Don Airey, foi impecável - parecia que a música flutuava no ar. Foi delicado e forte ao mesmo tempo.

    Teve ainda a nova e bem bacana Lazy Sod do =1 e que foi ligada ao clássico Lazy do Machine Head, que também foi super divertida e cheia de Groove com direito à uma introdução nos teclados feita por Don Airey trazendo um pouco do clima de suas radiantes versões ao vivo dos anos 70. Ian Gillan tocando sua gaita, os músicos sorrindo entre si... dava para ver que estavam se curtindo no palco.   

    Aí chegou When a Blind Man Cries, que saiu como single na época do Machine Head e foi inclusa no tracklist na edição de 25 anos e foi impossível não se emocionar. A música é linda, melancólica, e saber depois que Ian Gillan costuma dedicar essa canção à mãe, só deixou tudo mais tocante. Um silêncio respeitoso tomou conta do lugar.

    Na sequência, Ian Gillan anunciou: "Name of a beautiful woman... Anya". Assim relembraram do The Battle Rages On de 1993 e a música veio dramática, intensa, com clima de filme. Fiquei hipnotizada e pouco depois foi a vez de Don Airey brilhar com seu impressionante solo de teclados.

    E o show ainda seguiu com mais porrada: Bleeding Obvious, a terceira exibida nesta noite do =1 com um toque sarcástico, a sempre adrenalizante Space Truckin' do Machine Head com energia de sobra, e claro, ela: a mais conhecida e esperada por todos em um show do Deep Purple: Smoke On The Water, gravada no Machine Head e imortalizada em nossas almas, que quando começou, o Parque do Ibirapuera virou um imenso coral. Todo mundo cantando junto... Foi mágico e finalizando assim com maestria a primeira parte do set.

    Quando tudo parecia ter acabado, eles voltaram para o encore. Começaram com Green Onions, cover do Booker T. & The MG's com um instrumental dançante, leve, só para dar aquele respiro. Depois veio explosiva Hush do Joe South gravada pela Mark I no primeiro álbum da banda, o Shades Of Deep Purple de 1968 e Hush é super animada, mexe com o público e sempre ideal para shows.

    Por fim, Black Night, que originalmente saiu em single, entretanto, foi inclusa no tracklist da edição de 25 anos do álbum In Rock, e encerrou esta formidável apresentação do Deep Purple no Best Of Blues and Rock com o público gritando e pulando junto.

    Saí do show com a sensação de ter vivido algo raro. O Deep Purple em sua Mark IX entregou tudo: peso, emoção, humor, história e finalizaram com perfeição esta 12ª Edição do Best Of Blues and Rock. E mesmo sem ser uma fã de longa data, fui totalmente conquistada. Foi inesquecível. Foi vivo. Foi Rock de verdade executado por veteranos que tem a alma de garotos e adoram estarem no palco.

Texto: Erika Beganskas
Fotos: @flashbang e Paula Cavalcanti ( @eyeofodin.photo )
Agradecimentos à equipe da Marra Comunicação - www.marracomunica.com.br
pela oportunidade, atenção e credenciamento
Julho/2025

Set List do Deep Purple

1 - Mars, The Bringer Of War
2 - Highway Star
3 - A Bit On The Side
4 - Hard Lovin' Man
5 - Into The Fire
6 - Guitar Solo
7 - Uncommon Man
8 - Lazy Sod
9 - Lazy
10 - When a Blind Man Cries
11 - Anya
12 - Keyboard Solo
13 - Bleeding Obvious
14 - Space Truckin'
15 - Smoke On The Water

Encore:
16 - Green Onions
17 - Hush
18 - Black Night

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