Ozzy Osbourne - No More Tours 2
Allianz Parque em São Paulo/SP
Domingo, 13 de maio de 2018

Grandiosa despedida de São Paulo/SP

    Ozzy Osbourne anunciou no ano passado que a turnê inicialmente chamada de Farewell World Tour e depois renomeada para No More Tours 2 seria a derradeira de sua carreira ( ao menos mundial e mais longa ), que entre os anos com o Black Sabbath e como artista solo já somam cinco décadas, 18.262 dias e mais de 2.500 shows... marcas expressivas de um cantor que se tornou uma lenda do Rock'n'Roll e é ao lado de Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward, um dos responsáveis pelo que chamamos e conhecemos de Heavy Metal em nossas vidas.

    Mas este papo sobre o Black Sabbath e seu encerramento comentei detalhadamente no final de 2016, quando os ingleses estiveram por aqui com a The End Tour ( relembre como foi em São Paulo neste link ) em um show emocionante.

    Já Ozzy Osbourne como artista solo se apresentou no Brasil por seis vezes ( contando esta ), sendo que em quatro delas o Rock On Stage esteve presente nos shows em São Paulo/SP, a saber: 2008 na divulgação do álbum Black Rain ( relembre aqui ), 2011 divulgando o álbum Scream ( clique aqui e leia ) e em 2015 como o headliner da primeira noite do Monsters Of Rock ( confira os detalhes neste link ). Além de São Paulo, as cidades de Curitiba/PR, Belo Horizonte/MG e Rio de Janeiro/RJ puderam também se despedir de Ozzy Osbourne.

    Mesmo com sua relevante importância para o Heavy Metal, a crise econômica que o Brasil está enfrentando somado ao preço elevado dos ingressos, que em um primeiro momento fez que a paixão pelo músico ficasse de lado e desta forma... poderia causar o risco do show não receber um número de presentes condizente com a grandeza de Ozzy Osbourne. Entretanto, as ações promocionais realizadas pela produtora T4F para que muitos comprassem seus ingressos em preços mais acessíveis levou um público estimado em 43.000 pessoas ao estádio Allianz Parque para assistirem ao show que pode realmente ser mesmo o último de Ozzy Osbourne em São Paulo/SP.

Motivações

    Mesmo com o 'Madman' alegando que: "As pessoas ficam me perguntando quando eu vou me aposentar. Essa será minha última turnê mundial, mas eu não posso dizer que não farei alguns shows aqui ou ali", a verdade é que o cantor de quase 70 anos pode não aparecer novamente no Brasil, embora, contradizendo esta realidade, como a turnê seguirá pelo mundo até 2020, quem sabe ele volta, não é? Enfim, como 'o seguro morreu de velho', todos nós optamos por conferir seu show desta vez... e no meu caso, pela quarta vez.

    E não era só isso, Ozzy Osbourne contava com o retorno à sua banda do guitarrista Zakk Wylde, que seja com o Black Label Society ou com seu projeto de covers do Black Sabbath, o Zakk Sabbath, conta com muitos fãs no país. Se não bastasse, junto ao Ozzy tínhamos também Rob "Blasko" Nicholson no baixo, Tommy Clufetos na bateria e Adam Wakeman nos teclados ( filho do mestre Rick Wakeman, que há 15 anos está com o vocalista ). Inclusive, Tommy Clufetos e Adam Wakeman comandaram a bateria e os teclados das duas últimas turnês mundiais da história do Black Sabbath

    É... motivos para rever o Príncipe das Trevas não faltavam e quando eram 21:30, finalmente era chegada a hora. As luzes foram apagadas e o vídeo introdutório exibido com imagens do pequeno John Michael Osbourne em Aston na Inglaterra e também de sua carreira solo desde o início dos anos 80 até os dias atuais e aos gritos de "Ozzy... Ozzy..." por toda a plateia ao som de O Fortuna de Carl Orff, que sempre é o tema de abertura de seus shows, eis que surge Ozzy Osbourne todo de preto e com uma brilhante capa roxa para começar inflamando a todos com Bark At The Moon, ( canção título do álbum de 1983 ) e o que já me chamou a atenção foi a movimentação dele no palco, bem maior que em outras ocasiões. A capa não durou muito em suas costas, pois, nesta música ele já se desvencilhou dela e a banda demonstrou uma sincronia perfeita, sendo que Zakk Wylde enviou solos fulminantes em sua guitarra Wylde Audio amarela de círculos pretos ( uma da linha própria guitarras dele ) . E lógico que nós cantamos com ele, aplaudimos e intensificamos os "hey... hey..." sempre que solicitados pelo músico inglês, que clamou um de famosos seus bordões: "Let me heard you....".

    A segunda da noite foi a Mr. Crowley do primeiro cd Blizzard Of Ozz de 1980, o primeiro registro dele pós Black Sabbath, que alçou sua carreira solo ao sucesso e ele pergunta: "Estão se divertindo?" e com o óbvio "sim" de resposta complementa: "ótimo, eu também..." e do centro do palco como um mago, Ozzy regeu nossa euforia e cantou com sua contagiante voz os versos deste clássico do Heavy Metal em que os teclados de Adam Wakeman produziram um clima todo sombrio e Zakk Wylde solou com uma bela Flying V listrada de preto e branco, solos estes que contaram com um acompanhamento de muitos "ôôôôô...ôôôôô...", "hey... hey..." e palmas dos milhares de fãs.

    Antes de continuar, quero também enaltecer o ótimo palco de Ozzy Osbourne com um telão principal dividido por uma grande cruz e também a iluminação, que estavam perfeitos. Em seguida, I Don't Know, outra do Blizzard Of Ozz, que é iniciada com fervoroso riff de guitarra de Zakk Wylde e Ozzy aplica tanta energia nesta música em que é difícil ficar sem pular, porém, no seu trecho mais 'balada' todos erguemos as mãos para o alto simultaneamente e as balançamos ao comando do nosso amado herói dos vocais.

Aplacando a saudade e sempre alucinado

    Carismático como sempre, Ozzy nos provoca dizendo que não consegue nos ouvir para aumentar o frisson do show e apresenta cada um dos membros de sua banda, que recebem os aplausos da plateia e anuncia a primeira das músicas do Black Sabbath da noite com a Fairy Wear Boots, canção que Zakk Wylde solou com muita categoria junto à base feita por Rob "Blasko" Nicholson no seu baixo. E com um sucesso do álbum Paranoid de 1972 como este sendo exibido diante de nossos olhos ( e ouvidos ) não tínhamos como delirar e sentir suas notas levando muita felicidade a cada uma de nossas células já saudosas da banda inglesa.

     Outro dos grandes hits de sua carreira solo, Suicide Solution ( escrita por Bob Daisley - baixista do álbum Blizzard Of Ozz - para o amigo Bon Scott do AC/DC, que faleceu em decorrência de muita bebida e também que motivou um processo contra Ozzy Osbourne quando uma jovem se suicidou ao ouví-la e detalhe... a letra não é sobre encorajar o suicídio e sim como preveni-lo ) veio com seu peso e muita moral tocados pela banda para que o inquieto vocalista andasse para a esquerda e direita do palco ( em distâncias curtas, lógico ), demonstrando que ainda possui muita eletricidade para nos passar em um show. Óbvio que nossa reação foi de olhar atentamente ( e cantar ) a cada passo dado pelo 'Madman'. Aliás, um pouco desta loucura aconteceu no longo solo de Zakk Wylde, pois o vocalista sem pudor nenhum abaixou as calças e mostrou suas 'partes baixas' para a plateia e depois bangueou bastante em alguns momentos para um senhor com a idade que tem. Ou seja, continua insano.

    Muito bacana de Ozzy Osbourne é ver ele dizer "You are number one... God blessed you..." para nós o tempo todo, demonstrando um respeito e um carinho muito grande com os fãs e logo em seguida percebemos os dedilhados no baixo de Rob "Blasko" Nicholson trazendo as primeiras notas de No More Tears ( hit e título do álbum de 1991 ), que chacoalhou mesmo o estádio, pois, seu infectante 'punch' e junto ao fato de que muitos dos presentes que ouviram ela nas rádios nos anos 90 incontáveis vezes e relembraram certamente de muitos momentos importantes em suas vidas.

    Alternando enquanto canta seus versos, Ozzy regia nossas palmas e empolgação demonstrando o grande frontman que sempre foi, como ficou claro na parte dos seus solos de teclados e guitarras em que Adam Wakeman e Zakk Wylde garantiram a emoção ( este último usando um slide em sua guitarra ), que só não foi maior que os headbangings do Príncipe das Trevas ( poucos é bem verdade, mas, se fazemos isso hoje nos shows, devemos à ele... ). E fazia um tempo que No More Tears não era tocada por aqui, a última vez foi há dez anos no mesmo local quando o nome do estádio era Palestra Itália.

   Na sequencia, Ozzy comanda a festa nos fazendo contar com ele até 3 e depois grita euforicamente ( como se precisasse ) para suavizar a energia alcançada com Road To Nowhere ( outra do No More Tears ) em que sentimos a alegria de seus versos transpassarem do palco e atingirem nossos corações, pois, estivemos diante de uma das muitas excelentes baladas Heavy, que ele cravou em sua carreira.

    Novamente para relembrar da lacuna que o Black Sabbath deixou ao terminar suas atividades, as luzes vermelhas e os sinais de sirenes denunciaram que a atemporal War Pigs do Paranoid seria a próxima com Ozzy pedindo palmas e além disso, recebendo em troca um coro que ecoou por todo o estádio. No fundo, as chamas nos telões e na cruz serviram para mostrar que esta música ainda é atual, afinal, o mundo está 'doidinho' para que uma guerra ecloda. Outro ponto interessante de citar, além dos sempre imponentes "ôôôôôôô" dos fãs, ressalto a atuação de Adam Wakeman na guitarra base para os solos de Zakk Wylde, e desta forma, o músico veio mais à frente do palco e quem também brilhou o tempo todo foi Tommy Clufetos, que segurou o repique nos instantes exatos e 'sentou a mão' com precisão nos outros, aliás, como este 'garoto' bate com força em sua bateria.

Guitar Hero

     Antes do descanso do 'Madman', Zakk Wylde foi até a área entre a plateia e o palco para de lá disparar uma sequencia de solos impressionante, que conferiram o ar Metal de War Pigs e também a parte de improvisação ( característica marcante do Black Sabbath ). E o guitarrista grandalhão, que é basicamente um ogro em seu estilo de ser ficou solando por lá por vários minutos, o que valoriza ainda mais um solo de uma guitarra como este e assim iniciou uma mescla que passou por Miracle Man e Crazy Babies ( ambas do No Rest For The Wicked de 1988 ), que prosseguiu com  trechos de Desire do No More Tears e terminou com a Perry Mason do Ozzmosis de 1995. Confesso que foi muito bom relembrar destas músicas da carreira de Ozzy Osbourne, mesmo que apenas nos exuberantes solos de guitarra e empolgado que estava, Zakk Wylde tocou com ela nas costas, com os dentes, enfim, todas as firulas que adoramos e fazem o Rock ser especial.

    Zakk Wylde comandou as atenções por alguns minutos, até que passou a bola para Tommy Clufetos emendar seu curto, mas, esmagador solo de bateria, pois, foi um daqueles que nos deixar de olhos arregalados. Foi um solo mais breve porque o senhor das trevas não ficou tanto tempo nos bastidores e ansioso como é retornou instantes depois e continuou o set com o Hard Rock Flying High Again sendo que Zakk Wylde solou firme em sua guitarra Flying V e trouxe a nostalgia do início de sua carreira com esta música do espetacular álbum Diary Of Madman de 1981, que para mim é o melhor dos discos de Ozzy Osbourne.

    Só agora se aproximando para o final do show, que Ozzy conversou mais diretamente com o público perguntando como estamos e Shot In The Dark trouxe toda a empolgação de sempre, mesmo em uma canção não tão pesada como esta, pois, Ozzy sabe manter o clima eletrizante de seu show o tempo todo, que novamente deixou Zakk Wylde brilhar nos solos de guitarras, mais encorpados que os originais registrados no disco The Ultimate Sin de 1986 por Jake E. Lee. Aliás, durante eles, Ozzy caminha daquele jeitão único seu pelos lados do palco demonstrando que sua animação só não era maior que a nossa por (re)vê-lo.

Maestro da loucura

    A dupla que encerrou a primeira parte do show foram duas músicas que sempre frequentam os set lists do 'Madman' e que foram simplesmente perfeitas nesta noite de domingo: primeiro a I Don't Want To Change The World do No More Tears, cujo verso "I don't wanna change the world // I don't want the world to change me" é definidor para quem curte Heavy Metal e Ozzy a cantou muito bem, além de provocar nossa participação com seu estilo inconfundível com direito aos backing vocals do parceiro Zakk Wylde.

    Depois, Ozzy faz uma graça para anunciar a última e posso dizer que Crazy Train do Blizzard Of Ozz colocou o estádio para pular com ele, que disse que era para todos ficarem loucos e aí mostrou toda sua vibração a cada nota e dentro de seus padrões... andou e se mexeu muito no palco nos inflamando com sua vitalidade, além de cantar com vigor a sua letra. Outro destaque eram as imagens no telão do show misturadas a uma chuva... é... até quando não chove Ozzy dá um jeito... e nos agradece quando acaba dizendo: "obrigado São Paulo, eu jamais esquecerei dessa noite enquanto eu Viver". Bem Ozzy tenha certeza que cada um dos fãs presentes no Allianz Parque também não, mas ainda tinha um pouco mais...

Homenagem e saudade

    No retorno, após ele mesmo puxar o coro "Olê... Olê... Olê... Ozzy... Ozzy...", o vocalista apresentou Mama, I'm Coming Home, outra do No More Tears, que destaca-se entre suas canções mais lentas, que se tornou ainda mais emblemática nesta noite de domingo, pois, era dia das mães e muitos de nós estávamos longe de casa e em pouco tempo já estaríamos de volta para casa, sinceramente, sua letra parecia uma declaração de amor para às nossas mães. E na hora dos solos, Ozzy fica do lado de Zakk Wylde, o abraça e se posiciona novamente no centro para cantar seus versos finais sorrindo bastante entre um e outro, além de nos deixar completar o refrão felizes da vida e emendar outro "God Blessed You All".

    Insano como sempre, Ozzy Osbourne começa o outro famoso coro, agora o "One More Song" e Paranoid do Black Sabbath levou toda a potência gravada por ele e seus amigos nos anos 70 de volta ao palco para coroar esta excelente apresentação do cantor inglês no país, que teve direito a um show de luzes marcante e a todos os riffs criados por Tony Iommi na versão de Zakk Wylde, que novamente solou com a guitarra nas costas. Ozzy nos prolongamentos vai de um lado a outro ( em pequenas distâncias ) e conclama os "heeey" da galera ao erguer suas mãos. E no fim, se agacha como se estivesse nos referenciando pela presença no Allianz Parque até reunir com todos da banda para a despedida final ao som de Changes nos PAs, que foi a nossa trilha de fundo para ir embora.

    O final desta No More Tours 2 será só em 2020 e pode ser que em algum momento Ozzy Osbourne retorne novamente ao Brasil e aí nós poderemos compartilhar mais uma vez todas as sensações maravilhosas que são produzidas em seu show, afinal, estamos falando de um dos ícones do estilo, que foi um dos responsáveis pelo Heavy Metal estar na minha vida todos os dias.

    Entretanto, por enquanto fica no ar a dúvida se esta foi mesmo última apresentação em São Paulo. E caso tiver sido mesmo... cravo aqui com segurança: foi um baita showzão, muito melhor que eu esperava, com o Ozzy tão maluco como sempre, cantando muito bem e com uma banda devidamente afiada relembrando sucessos que fazem parte de nossa história. E caso lá em 2020 Ozzy decida mesmo ficar em casa para ver seus netos crescerem e se apresentar eventualmente em esporádicos shows na Europa e Estados Unidos, sem descer para a América do Sul, olharemos para trás e poderemos contar satisfeitos: "É eu assisti ao último show do Ozzy em São Paulo e foi sensacional". Obrigado Ozzy!!!

Texto: Fernando R. R. Júnior
Fotos: Fernando R. R. Júnior e Ross Halfin ( divulgação )
Agradecimentos à Julia Mattos Santos e a equipe da T4F
pela atenção e credenciamento
Maio/2018

Set List de Ozzy Osbourne
Intro: O Fortuna (Carl Orff song)
1 - Bark At The Moon
2 - Mr. Crowley
3 - I Don't Know
4 - Fairies Wear Boots
5 - Suicide Solution
6 - No More Tears
7 - Road To Nowhere
8 - War Pigs
9 - Miracle Man / Crazy Babies / Desire / Perry Mason (Zakk Wylde's guitar solo)
10 - Drum Solo
11 - Flying High Again
12 - Shot In The Dark
13 - I Don't Want To Change The World
14 - Crazy Train
Encore:
15 - Mama, I'm Coming Home
16 - Paranoid

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