Angra - Temple Of Shadows 20Th Anniversary Tour - Interlude: Final Lap
Abertura: Viper e Azeroth
Tokio Marine Hall - São Paulo/SP
Domingo, 03 de agosto de 2025
   

    Nos últimos anos, as atividades do quinteto brasileiro de Heavy Power Metal foram deveras intensas, pois, fizeram a turnê de comemoração dos 20 anos do álbum Rebirth, a turnê comemorativa dos 30 anos de banda, a turnê de promoção ao Cycles Of Pain alguns shows acústicos e por fim esta Temple Of Shadows 20th Anniversary Tour - Interlude, cuja Final Lap foi realizada no domingo 3 de agosto no Tokio Marine Hall marcou o último show deste ciclo e o início de um hiato divulgado anteriormente pelos músicos.

    E aí, pipocaram muitas perguntas nas redes sociais e nos comentários entre os fãs da banda: eles demoram para voltar? quando voltarem será com um novo disco? teremos uma reunião com antigos integrantes? no retorno será com o mesmo line up que vimos nos shows dos últimos anos? 

   Todas essas questões e até outras não mencionadas aqui só serão respondidas depois de um bom tempo quando os músicos do Angra recuperarem suas forças, aproveitarem suas merecidas férias e se dedicarem aos seus projetos paralelos. Enfim, vamos aguardar pelas vindouras novidades.

    Entretanto, o objetivo desta matéria é contar o presente e como foi o último show antes da anunciada parada de uma das mais importantes bandas do Heavy Metal Brasileiro em uma festa que contou com outra banda consideravelmente importante para o nosso Heavy Metal, os precursores do Viper, que estão firmes com sua turnê celebrando os 40 anos de sua fundação. Conto a partir de agora como foram estes shows, que foram produzidos pela Top Link Music.

Azeroth

    Ao chegar ao Tokio Marine Hall fui recebida por um som tão poderoso que por um instante pensei: "Será que o Angra já começou?" Mas não, quem estava no palco eram nossos hermanos da Azeroth, banda argentina que não economizou energia e já chegou arregaçando sem piedade.

    A entrega foi de tirar o fôlego: peso na medida certa, técnica impecável e aquela pegada melódica que remete aos grandes nomes do Power Metal europeu. Era impossível não se impressionar. Formada em Buenos Aires em 1995, a Azeroth é um dos nomes mais respeitados do Power Metal Melódico na Argentina. Em mais de 25 anos de estrada, o grupo construiu uma identidade única, misturando riffs afiados, linhas vocais grandiosas e um cuidado técnico que conquistou fãs não apenas na América Latina, mas também na Europa.

    Em 2025, eles desembarcaram pela primeira vez no Brasil, escolhidos para abrir o último show da turnê de despedida do Angra. Transformaram o que poderia ser apenas um aquecimento em uma verdadeira demonstração de força do Metal Argentino. O show começou com a tríade arrasadora do EP Left Behind de 2024, passando pela canção título, pelo peso de Beyond Chaos e pela energia de Prelude To Oblivion levando o público a um transe coletivo.

    Logo depois veio a grandiosa Trails Of Destiny, lançada no álbum homônimo de 2025, confirmando que a banda segue renovada e criativa. O set ainda contou com a presença histórica de La Salida, que foi registrada originalmente em compilações de 2001 e que arrancou aplausos nostálgicos e também com as ainda inéditas Ancient Trail e Falling Mask, que adicionaram um ar de descoberta à apresentação. A discografia da banda soma cinco álbuns de estúdio, incluindo o mais recente Senderos del Destino ( 2022 ) e conta com participações de peso como Adrián Barilari ( Rata Blanca ), Christian Bertoncelli e Hansi Kürsch ( Blind Guardian ).

    A formação atual reúne músicos de destaque na cena latina: Fernando Ricciardulli ( ex-Anna Fiori ) no baixo, fundador e líder do grupo, Ignacio Rodríguez ( Arkahn e Damnation Angels ) nos vocais e guitarra, Pablo Gamarra ( ex-Hyedrah ) e David Zambrana nas guitarras, Daniel Esquivel ( Resiliencia ) na bateria e Leonardo Miceli ( ex-5th Element ) nos teclados. Com esse time, a Azeroth entrega um show técnico, energético e fiel às raízes do Power Metal. A estreia em solo brasileiro não foi apenas um marco na carreira do grupo, mas, também um lembrete de que o Metal Sul-Americano segue vivo, pulsante e pronto para conquistar ainda mais corações pelo mundo.


Set List do Azeroth
1 - Intro
2 - Left Behind
3 - Ancient Trail
4 - Falling Mask
5 - La Salida
6 - Beyond Chaos
7 - Trails Of Destiny
8 - Ancient Trail
9 - Falling Mask

Viper - 40 Anos

    Quarenta anos. Tempo suficiente para transformar uma banda em família e fazer a música atravessar gerações. Em 2025, o Viper decidiu celebrar esse marco de forma grandiosa, gravando um álbum ao vivo no Tokio Marine Hall em São Paulo. A casa estava lotada, os olhares cheios de expectativa e, no ar, uma mistura de festa e saudade.

    Não era apenas uma comemoração, mas, também um abraço coletivo à memória de Pit Passarell e de André Matos, dois nomes que fazem parte do DNA do Viper e do Heavy Metal Brasileiro. Pit Passarell nos deixou em setembro de 2024, após enfrentar um câncer no pâncreas. Já André Matos partiu em 2019, todavia, continua vivo em cada nota de Living For The Night e em cada fã que aprendeu a sonhar com o Metal por causa dele. Naquela noite, cada música carregava também um tributo silencioso a esses gigantes.

    No palco, a formação atual com Felipe Machado na guitarra, Leandro Caçoilo nos vocais, Kiko Shred na guitarra, Guilherme Martin na bateria e Daniel Matos ( irmão de André Matos ) assumiu o peso desse legado com coragem e respeito, entregando um show à altura da ocasião.

    A abertura veio com Reality, do álbum Timeless de 2023, mostrando que o nome não é por acaso: o tempo pode passar, porém, a essência permanece. Under The Sun  também dessa fase mais recente manteve a pegada moderna e intensa, com Leandro Caçoilo mostrando porque é a voz que conduz o Viper hoje.

    Quando To Live Again começou foi impossível conter a emoção. Clássico absoluto do disco Theatre Of Fate de 1989, imortalizado por André Matos fez muita gente chorar. Braços erguidos, vozes unidas e aquela ausência presente, que ao mesmo tempo doía e aquecia. O peso voltou com Dead Light  do Evolution de 1992 e continuou com a melodia cortante de A Cry From The Edge do Theatre Of Fate, que parecia abrir antigas feridas. Em Soldiers Of Sunrise, que é título do primeiro disco do Viper e foi lançado em 1987, os fãs mais antigos viajaram no tempo, enquanto os mais novos entenderam de onde tudo começou.

    A fase noventista surgiu com Coma Rage ( título do álbum de 1994 ) e, logo depois, a bela balada The Spreading Soul ( do Evolution de 1992 ), que marcou o ponto mais emocionante da noite. Dedicada a Pit Passarell e André Matos, a música virou um ritual. As luzes dos celulares iluminaram o salão, o silêncio tomou conta e, em seguida, vieram aplausos longos e sinceros.

    Na reta final, Timeless reafirmou que o Viper não está preso ao passado e segue olhando para o futuro. Prelude To Oblivion  do Theatre Of Fate trouxe o peso épico que fez a plateia vibrar, todavia foi outra desse disco, a Living For The Night que arrebatou tudo. Com Rafael Bittencourt do Angra no palco, o Tokio Marine Hall veio abaixo. Rafael Bittencourt bradou no microfone: "VIDA LONGA AO VIPER!", arrancando aplausos e gritos emocionados.

    O fechamento ficou com mais uma do Evolution com a Rebel Maniac, uma explosão de energia que fez todos esquecerem o cansaço. Foi libertação e catarse. E como se não bastasse, a banda ainda relançou o disco Tem Pra Todo Mundo  de 1996 com nova mixagem e vocais de Pit Passarell recuperados por inteligência artificial, mantendo-o vivo na música, onde sempre pertenceu. O Viper não encerrou um ciclo. Pelo contrário, mostrou que mesmo depois das perdas e transformações, a chama continua acesa. Bandas envelhecem, lendas não. Lendas ecoam.

Set List do Viper

1 - Reality
2 - Under The Sun
3 - To Live Again
4 - Dead Light
5 - A Cry From The Edge
6 - Soldiers Of Sunrise
7 - Coma Rage
8 - The Spreading Soul
9 - Timeless
10 - Prelude To Oblivion
11 - Living For The Night
12 - Rebel Maniac

Angra - 20 Anos de Temple Of Shadows

    O Angra não é apenas uma banda de Metal, é um capítulo vivo e pulsante da música brasileira. São mais de três décadas misturando peso, melodias sofisticadas, música clássica e ritmos brasileiros, conquistando palcos e corações no Brasil e no mundo.

    Tudo começou com André Matos, uma das vozes mais marcantes que o Metal já ouviu. Entre 1991 e 2000, ele deu vida a álbuns que moldaram a identidade do Angra, como Angels Cry de 1993, Holy Land de 1996 e Fireworks de 1998, deixando um legado lírico e dramático que segue ecoando a cada show. Mesmo depois de sua partida, seu nome é reverenciado com carinho e respeito por todos que carregam essas músicas no coração.

    Em 2001, Edu Falaschi assumiu os vocais e trouxe nova energia. Com ele vieram Rebirth de 2001 e Temple Of Shadows de 2004, marcos da segunda fase da banda, unindo agressividade, emoção e carisma para conquistar uma nova geração de fãs. Foram 11 anos escrevendo mais páginas dessa história.

    Em 2013, a voz passou para Fábio Lione, o italiano de presença magnética e técnica impecável, conhecido pelo Rhapsody. Sua estreia foi no Rock in Rio e desde então ele mantém viva a chama do Angra, equilibrando respeito às raízes e frescor criativo. Álbuns como Secret Garden de 2014 e ØMNI de 2018 mostraram que a banda segue se reinventando. E agora, em 2025, a turnê comemorativa de Temple Of Shadows confirma que o Angra não apenas sobreviveu ao tempo como também cresceu com ele.

    Hoje, a formação reúne Rafael Bittencourt, guitarrista, fundador e alma da banda, Fábio Lione, dono de um carisma raro, Marcelo Barbosa, guitarrista virtuoso, Filipe Andreoli, referência no baixo e Bruno Valverde, um fenômeno na bateria, que toca simplesmente com Adrian Smith e Ritchie Kotzen - é um time que une experiência e juventude, técnica e emoção.

     Aquela noite no Tokio Marine Hall começou com um golpe certeiro: Nothing To Say, do clássico Holy Land que é complexa, tensa e cheia de peso, avisou de imediato que o show não seria comum. Na sequência, Millennium Sun do Rebirth trouxe um respiro melódico sem deixar a intensidade cair. O público então foi levado ao presente com Tide Of Changes - Part I e Part II ( do último de estúdio, o Cycles Of Pain de 2023 ). A primeira parte, atmosférica e introspectiva; a segunda, uma explosão de riffs e de melodia que prova como o Angra ainda tem muito a dizer.

    Com a plateia já entregue, as luzes se apagaram e a introdução Deus Le Volt! anunciou o momento mais esperado: a execução completa de Temple Of Shadows. No telão, imagens medievais e simbólicas reforçavam o clima épico. A jornada começou com Spread Your Fire, seguida por "Angels and Demons", "Waiting Silence", "Wishing Well" e "The Temple of Hate", todas recebidas com euforia.

    Em The Shadow Hunter e No Pain For The Dead, o clima mudou. A delicadeza tomou conta, especialmente com a participação de Vanessa Moreno, que emprestou sua voz suave e poderosa a um dos momentos mais emocionantes da noite. Winds Of Destination chegou com uma surpresa: Fábio Lione iniciou a música cantando um trecho de Bohemian Rhapsody a capella, arrancando aplausos antes da avalanche instrumental. O encerramento do disco veio com "Sprouts Of Time", "Morning Star" e "Late Redemption", que fecharam a narrativa como uma verdadeira ópera Metal, densa, emotiva e catártica.

    Mas a noite estava longe de acabar. O Angra voltou mais no tempo com a Rebirth, que intitula o quarto álbum de estúdio e que nos brindou novamente com Vanessa Moreno. Sua voz contrastou com o peso da banda, criando um dos momentos mais belos do show. Depois veio  repleta de adrenalina Angels Cry, canção título do disco de estreia e que é carregada de história e emoção.

    E então, uma surpresa: um cover poderoso de No More Tears, do ícone Ozzy Osbourne. Mais do que uma escolha de repertório, foi uma homenagem a um dos pilares do Heavy Metal Mundial. No telão, imagens históricas de Ozzy reforçaram o clima de reverência, enquanto a plateia cantava junto, transformando o momento em um “obrigado” coletivo a uma lenda viva ( lembrando que Ozzy Osbourne nos deixou no dia 22 de julho de 2025, poucos dias antes deste show ).

    No encore, a introdução instrumental Unfinished Allegro abriu caminho para Carry On do Angels Cry, que mesmo sem o último refrão e ponte, a música manteve seu poder de levantar o público com um coro ensurdecedor ecoando pelo salão. Para encerrar, Nova Era, hino da fase Rebirth, e Gate XIII, que soou como um epílogo cinematográfico, que finalizaram a noite com a sensação de que o Angra não entregou apenas um show, mas uma verdadeira viagem por sua história.

Texto: Erika Beganskas
Fotos: André Tedim
Agradecimentos à equipe da Top Link Music ( Thiago Rahal Mauro )
e do Tokio Marine Hall ( Felipe Martinez ) pela atenção, oportunidade e credenciamento
Agosto/2025

Set List do Angra

Intro Tour 2024-2025 ( contains elements of "Faithless Sanctuary" )
1 - Nothing To Say
2 - Millennium Sun
3 - Tide Of Changes - Part I
4 - Tide Of Changes - Part II
5 - Deus Le Volt!
6 - Spread Your Fire
7 - Angels and Demons
8 - Waiting Silence
9 - Wishing Well
10 - The Temple Of Hate
11 - The Shadow Hunter
12 - No Pain For The Dead
13 - Winds Of Destination
14 - Sprouts Of Time
15 - Morning Star
16 - Late Redemption
17 - Rebirth
18 - Angels Cry
19 - No More Tears
20 - Unfinished Allegro
21 - Carry On
22 - Nova Era
23 - Gate XIII

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