VIII Rock In Lago
Com: Nenhum de Nós, Flor de Lótus e T-Ale
Lago Municipal de Jacutinga/MG
Sábado, 18 de agosto de 2017

    Pela terceira vez pude acompanhar mais uma edição do festival Rock In Lago na cidade mineira de Jacutinga, que sempre nos tem levado grandes nomes do Rock Nacional e também bandas das cidades vizinhas e algumas locais, que produzem três dias de harmonia e de ajuda social, já que o ingresso era um quilo de alimento ( ou R$ 5,00 para quem se esquecesse ) com a intenção de ajudar a Santa Casa de Jacutinga.

    Se em 2017, a organização capitaneada por Rodrigo Tuiaya e o Clube do Rock de Jacutinga em parceria com a Prefeitura Municipal de Jacutinga/MG trouxe o Cachorro Grande pela primeira vez na cidade e já causou um grande alarde nos fãs ( confira como foi ), agora em 2018 eles foram mais longe e colocaram os também gaúchos do Nenhum de Nós, que também primeira vez estava se apresentando em uma cidade próxima de Espírito Santo do Pinhal/SP, pois, anteriormente, as notícias de shows da banda no estado de São Paulo eram apenas na capital.

    Isso por si só, já foi o motivo que fãs de muitas cidades da região se dirigissem para o VIII Rock In Lago, pois, sabíamos que era uma oportunidade única em nossas vidas de acompanhar ao show uma das mais importantes bandas dos anos 80 e que nunca teve mudanças em sua formação e nos brindou com tantos sucessos ao longo dos anos.

     Além da atração principal desta edição, o VIII Rock In Lago contou também com a presença das bandas Midnight, Marginália Blues, Rardecoque, Friends With Jack, Bando D'Água, 10Ventura, Flor de Lótus, T-Ale, Dialética, Stoned Bulls, Gearbox, Ethos, Six No Rusty, Barbaria, Johnny Joe e Sound Rateio, que foram divididas nos três dias do evento sendo da sexta feira dia 17 ao domingo 19 de agosto. E a partir de agora nesta matéria para o Rock On Stage começo a contar como foram algumas destas apresentações com ênfase no histórico show do Nenhum de Nós no sábado.

Flor de Lótus

    Quando cheguei ao Lago Municipal de Jacutinga/MG percebi que a presença do público seria realmente muito grande, além de me encontrar com amigos e amigas de várias cidades da região, sendo que muitos deles já estivemos juntos em alguns shows ao longo dos anos, fato que produz um caráter mais familiar ao evento. Infelizmente, perdi o show do 10Ventura, porém, cheguei a tempo de conversar com muito destes companheiros(as) de estrada neste caminho de Rock'n'Roll que trilhamos em nossas vidas e também a tempo de assistir a apresentação do Flor de Lótus na integra.

    A banda mineira de Jacutinga Flor de Lótus, que é atualmente formada por Rodrigo Tuiaya nos vocais, Carlos Molinari nos teclados, Willian Arruda no baixo, Brandelero na guitarra e Marcelo Papa na bateria subiu no palco às 20:45 para desfilar alguns grandes sucessos do Rock Nacional, que fazem parte do seu costumeiro repertório. Assim que vi o quinteto no palco também pude observar a excelente estrutura de iluminação, som e o grande telão no fundo com o logotipo da banda em uma produção muito cuidadosa da organização.

 

    Até Quando Esperar foi a escolhida para início da apresentação em que destaco a presença de palco do vocalista Rodrigo Tuiaya, que passava muita atitude, além de se mexer e fazer várias caras e bocas neste sucesso do Plebe Rude, que é devidamente atual parecendo que foi composta anteontem. Logo em seguida resgataram a Dezesseis, uma das músicas mais pesadas do Legião Urbana com o vocalista convocando a participação do público nos versos finais e os demais membros da banda fazendo um prolongamento para sustentar este momento. Do Barão Vermelho tocaram o Blues contido em Mais Uma Dose, que foi muito bem executado pelo Flor de Lótus, que ofereceu a canção aos presentes.

    Contente, o vocalista grita: "Muito Obrigado Rock In Lago..." e comenta da importância do evento, da presença do público, da parte solidária e conclui pedindo uma salva de palmas para a plateia. Ainda na pegada Rock e Blues, eles relembraram da Rita Lee com Jardins da Babilônia, porém, no estilo da regravação do Barão Vermelho. Na sequencia, o vocalista informa que a próxima música é de uma banda que já se apresentou no Rock In Lago, o Tianastácia com Cabrobó, que por ser agitada garantiu a vibração do público. Bastante conhecida e que não chega a ser tão Rock, Anunciação do Alceu Valença também foi lembrada pelos mineiros e bem recebida pelo público.

    A tranquila Lanterna dos Afogados acalmou e nos fez lembrar dos Paralamas do Sucesso, além de destacar os solos do guitarrista Brandelero. Rodrigo Tuiaya convida Marcelo Papa para cantar a Like A Stone do Audioslave prestando uma sempre válida homenagem à Chris Cornell. Para inflamar mais os fãs, Rodrigo Tuiaya avisa que o Nenhum de Nós já está chegando e convida o amigo Língua para tocar a bateria na versão de Que País é Este? do Legião Urbana, outra canção que se mantém tão relevante nos dias de hoje quanto era nos anos 80. E a versão do Flor de Lótus contou com ótimos riffs e um andamento um pouco mais lento, se comparado ao original, que levaram à um trecho de País Tropical do Jorge Ben Jor.

    Sempre canção presente nos set lists dos mineiros e de bandas que investem em covers nacionais, até por conta da música mexer com o público consideravelmente, Tempo Perdido do Legião Urbana levou os presentes a cantarem seus versos com o Flor de Lótus. Contente, o vocalista grita "Valeu Rock In Lago... a nossa saidera" e Pro Dia Nascer Feliz do Barão Vermelho foi a energia perfeita enviada do palco para nós e que fez o devido aquecimento para o show do Nenhum de Nós em mais outra apresentação correta e certeira dos mineiros.

 

Set List do Flor de Lótus

1 - Até Quando Esperar
2 - Dezesseis
3 - Mais Uma Dose
4 - Jardins da Babilônia
5 - Cabrobó
6 - Anunciação
7 - Lanterna dos Afogados
8 - Que País é Este?
9 - Tempo perdido
10 - Pro dia Nascer Feliz

Nenhum de Nós

    Os expressivos números do Nenhum de Nós são um dos motivos que podem explicar porque a banda arrastou os milhares de fãs nesta noite do Rock In Lago, veja porque: são mais de 2000 shows, doze discos de estúdio, cinco ao vivo e três DVD´s, além do recente EP Doble Chapa, que foi lançado em 2018, que juntos venderam 3,5 milhões de cópias nos quase já completos trinta e dois anos de carreira dos gaúchos.

    A expectativa em assistir ao show do Nenhum de Nós só não era maior que a ansiedade de vê-los o quanto antes no palco e o telão no fundo exibia uma imagem que é a capa do EP Doble Chapa, registro motivador deste novo giro pelo Brasil do quinteto formado por Thedy Corrêa nos vocais, Carlos Stein e Veco Marques nas guitarras, Sandy Homrich na bateria e João Vicenti nos teclados e acordeom, que foram novamente acrescidos do músico convidado Estevão Camargo no baixo.

Latinos

    Assim que foram anunciados pela organização, a eletricidade dos fãs foi imensa logo na música de introdução com percussões e um estilo eletrônico experimental e o mais interessante, se tratava de América do Sul do cantor Ney Matogrosso em que vimos eles tomarem suas posições já saudando com muita humildade a plateia. Isso seguiu para uma passagem que me lembrou na hora do The Who pelo ritmo aplicado e se transformou na surpreendente versão de Sangue Latino do lendário Secos e Molhados ( que foi regravada por eles no álbum autoinitulado de 1992 ), com Thedy Corrêa nos vocais e no baixo já emocionando a cada um de nós pelo clima maravilhoso que este clássico do Rock setentista nacional impõe entre solos de acordeom de João Vicenti e de guitarra de feitos por Carlos Stein.   

    A segunda da noite foi a romântica Eu Não Entendo ( do Histórias Reais, Seres Imaginários de 2001 ) responsável pelo aumento de nossa felicidade e também das boas sensações ao conferir a atuação de Thedy Corrêa nos vocais e toda a técnica dos demais, literalmente, nos enfeitiçando, pois, além de cantar seus versos, não tirávamos o olhar do palco e dos músicos.

Longos, porém, respeitáveis discursos

    Entre muitos aplausos, Thedy Corrêa simpático como sempre diz: "Boa noite Jacutinga... é um enorme prazer para o Nenhum de Nós estar aqui com vocês nesta noite, neste festival tão bacana, a gente está aqui na cidade na verdade desde ontem, a gente acompanhou as bandas tocando, acompanhou a movimentação.

    É realmente um festival muito legal, o Nenhum de Nós agradece ao convite para vir até aqui encontrar vocês, para participar do festival, principalmente ao Rodrigo, cara que nos deu um apoio, a logística, o cara tava junto com a gente e arrasou aqui no palco... muito obrigado à ele." E continua: "Viva o Rock Brasileiro!!! Aliás, Minas Gerais tem essa qualidade, ela sustenta a ideia de que no Brasil se faz bom Rock'n'Roll... né? E a prova é um evento como esse numa noite tão legal, vocês aqui para ouvirem o Nenhum de Nós, uma banda que já tá um tempinho na estrada... a gente esse completa só 32 anos de estrada..."

    Brincando, Thedy Corrêa prossegue seu extenso discurso: "é que a gente começou com oito anos naquele tempo né... O Nenhum de Nós nunca deixou de lançar discos, de fazer show, de abastecer o seu público, tá lançando o EP chamado 'Doble Chapa', a capa tá lá no fundo e simboliza um pouco o encontro do Brasil com a América Latina e por isso 'Sangue Latino' no início. Essa é a ideia de que a gente deve se integrar, estabelecer um diálogo, compartilhar ideias, o Rock Brasileiro com o Rock que se faz em toda a América Latina, por isso, a gente vai falar disso um pouco mais adiante, mas, o que importa é o seguinte... eu sei que vocês estão muito afim de soltar a voz e cantar..."

    Irônico ele pergunta: "Quem tá afim de cantar com o Nenhum de Nós levanta a mão..." para finalizar: "vocês vieram ao lugar certo, o Nenhum de Nós preparou um repertório especial com um pouquinho do Doble Chapa, mas, principalmente, as canções que marcaram trinta anos de estrada... especialmente para vocês esta noite... então é importante, é muito importante preparar a garganta para cantar, mas, é muito importante que vocês preparem o coração para uma noite de grandes emoções... Sejam bem vindos ao show do Nenhum de Nós...." .Posso até considerar que o vocalista falou muito, porém, ficou demonstrado o tamanho da entusiasmo da banda neste show.

Positividade

    Assim, e em um ritmo e arranjos um pouco diferentes, o que se torna muito bacana as apresentações ao vivo, afinal, a música não precisa ser igual à sua versão em estúdio, o Nenhum de Nós executou O Astronauta De Mármore ( a brilhante versão feita pela banda de Starman do infelizmente falecido gênio David Bowie ), que ao identificarmos cantamos a plenos pulmões com Thedy Corrêa e pudemos presenciar a habilidade dos músicos em sua cativante melodia, além de receber com alegria as provocações do vocalista para que a interação banda e plateia fosse maior.

    Depois, com o violão nas mãos ele nos agradece de forma muito simpática e diz: "Brigado... dá para chamar esta música de um clássico, né?"- na verdade, cravo aqui seguramente... esta música é somente um dos maiores clássicos do Rock Brasileiro - e então prossegue: "as músicas que o Nenhum de Nós escrevem para vocês sempre procuram trazer coisas que contribuam, que sejam positivas, a música que a gente tá trabalhando no Doble Chapa se chama 'Uma Vida Ordinária' e ela fala justamente daquele desejo, que todos nós temos de ter uma vida extraordinária... acordar cedo, deixar a luz do Sol bater no nosso rosto e alimentar os nossos sonhos para a gente conseguir isso... 'Uma Vida Ordinária' para vocês!!!" 

    Assim tivemos a nova composição que é um Rock'n'Roll de linhagem mais Pop, devidamente gostoso de se ouvir e que já começamos a gostar também. Após, a novidade, outro dos clássicos máximos do Nenhum de Nós aos toques do violão de Thedy Corrêa, que convoca a plateia para participar no coro e que ao notar que se tratava de Sobre o Tempo - do terceiro cd da banda, o Extraño de 1990 - procuramos não errar um verso sequer e aproveitar cada uma das sensações que foram emitidas por sua melodia, aliás, devidamente amplificas aos solos de Carlos Stein usando o slide em sua guitarra e também os solos feitos por Veco Marques na parte final. Sem pausar e aos toques combinados de violão e guitarras com os vocais, o quinteto executou a Dança Do Tempo, a animada canção do Pequeno Universo de 2005, que o público mostrou que estava com sua letra também na ponta da língua, aliás, que letra emblemática.

   

Carinho por Minas Gerais

    Antes de continuar, Thedy Corrêa nos conta: "é o seguinte... quem gosta do Nenhum de Nós sabe que o Nenhum de Nós em 1994 lançou o primeiro acústico que uma banda de Rock fez no Brasil, de lá pra cá muita coisa aconteceu, mas em especial, o Nenhum de Nós acabou lançando DVD e o cd, o Acústico Ao Vivo 2 e nesse disco a gente fez uma homenagem a todos os amigos que a gente fez nessa nossa estrada aqui no estado de Minas Gerais, nós tivemos muitos amigos, mas, principalmente, o Nenhum de Nós tem uma relação com a música que este estado produz, com pessoas e artistas que se transformaram em nossos ídolos e referências para nós, por isso, a gente vai tocar essa canção agora aos nossos ídolos e nossos amigos, mas esta noite em especial aqui em Jacutinga, em homenagem a todos vocês amigos mineiros, que vieram nos receber aqui esta noite. Essa canção quase poderia ser o outro hino do estado de Minas Gerais, que ver?"

    Desta maneira, a nova Despliega do Doble Chapa foi exibida e impressionou também, particularmente nos solos de guitarra de Carlos Stein, na forma mais 'largada' de cantar do sempre falante Thedy Corrêa e no final com os toques dos teclados feitos por João Vicenti, além é claro da musicalidade por parte da banda a cada momento da canção. E não é que tinham fãs que cantaram fielmente com o vocalista? E saiba caro leitor(a), que eles eram muitos e todos bastante afiados.

    Thedy Corrêa pergunta: "quem aí é fã daquela banda Faith No More? Esta próxima canção está no Doble Chapa e se chama 'Fã de Faith No More' - é porque, ela fala de uma relação, de um amor que só se completa, quando ela descobre que a pessoa amada é fã de Faith No Nome, olha poder da música, espero que vocês gostem". E assim, eles nos expõem a uma viajante composição, que respondendo ao vocalista afirmo aqui facilmente: gostamos e muito, pois, além de seu ritmo mais lento, fechamos os olhos para sentir os longos solos de guitarra feitos Carlos Stein.

Sentimental

    Com Thedy Corrêa empunhando novamente o violão, eles exibem a romântica Amanhã ou Depois, a primeira do Histórias Reais, Seres Imaginários, que garantiu outro momento muito emocionante ao show e uma calorosa participação dos fãs, que acompanharam os solos de João Vicenti no acordeom. E sem falar nada, Thedy Corrêa olha para nós e sorridente começa a cantar a marcante Julho de 83, que é disparada para mim a melhor do álbum Histórias Reais, Seres Imaginários, pois, é simplesmente apaixonante ao relatar a sua história de amor de sua letra. João Vicenti aumentou a beleza da melodia de seus teclados, Carlos Stein solou sua guitarra caprichosamente e Thedy Corrêa solicitou nossa participação no refrão ( como se precisasse.... ) em outra parte do show que ficará registrada na memória.

    Um fã grita: "toca Obsessão" e o atento Thedy Corrêa olha para ele, sorri e inicia exatamente a canção citada, que pertence ao álbum Onde Você Estava em 93 ( de 2000 ) com seu envolvente ritmo Rock'n'Roll. Sempre muito comunicativo Thedy Corrêa comenta: "Aquele papo, que a gente tava falando lá no início, dessa conexão entre o Rock Brasileiro e o Rock Latino, ainda bem que não é só o Nenhum de Nós, que acredita que isso tem que acontecer, tem outras bandas brasileiras sensacionais, que também acreditam nessa ideia. Então, uma banda em especial, uma banda brasileira, de amigos nossos, que foi até a Argentina pra buscar uma canção que era um grande sucesso em todo o continente, aí eles trouxeram para o Brasil, fizeram uma versão em português e fez um baita sucesso.

    Já deu para ter uma ideia de qual música ele estava falando, e o vocalista continua: "Então, agora a gente vai tocar essa música no original em espanhol, pra que vocês conheçam, vocês podem cantar na língua que vocês quiserem, que vai dar certo, o que importa mesmo é que quando entrarem as guitarras, vocês vão reconhecer essa música, ela foi escrita por um grande ídolo do Rock Latino americano chamado Gustavo Ceratti, quando entrarem as guitarras vocês vão reconhecer a música e aqui nesse palco nós vamos fazer a conexão Latina funcionar como sempre, quer ver como vocês conhecem... atenção as guitarras".

    E não bastou mais que duas notas dos guitarristas para reconhecermos que ele estava falando do Capital Inicial, que a regravou a música como A Sua Maneira, a original de De Música Ligeira registrada em 1990 pelo Soda Stereo, que nesta noite no Rock In Lago mesclou versos em espanhol e português sendo responsável por uma euforia imensa nos fãs, que adoraram esta surpresa inclusa neste show pelos gaúchos.

    Com dedilhados lentos tocados por Veco Marques em sua guitarra tivemos a balada Foi Amor, que foi a representante do álbum Sempre é Hoje de 2015, o penúltimo registro de estúdio do Nenhum de Nós e que também foi um momento em que sentimos a positividade de banda, que se interligou em Você Vai Se Lembrar de Mim do nobre disco Paz e Amor de 1998, que assim que foi descoberta pelos fãs nos brindou com aquelas partes em que as bandas sempre juntam alguns de seus maiores clássicos um atrás do outro para tornar o show simplesmente inesquecível. Claro que a nossa reação foi de cantar cada verso com um grande sorriso estampado em nossos rostos e Thedy Corrêa nos fez balançar as mãos ainda mais felizes, afinal, é impossível ficar estático diante desta música.

    E a sequencia fica mais formidável, pois, sem falar nada, o vocalista já saiu cantando a bela Paz e Amor ( título do álbum de 1998 ) me levando particularmente a imaginar um casamento no formato narrado por sua letra. E antes dos reluzentes solos de guitarras de Veco Marques e Carlos Stein, Thedy Corrêa gritou: "mais do que nunca neste país todo mundo precisa e merece... Paz e Amor!!!" para então repetir o refrão novamente. João Vicenti com o acordeom nas mãos inicia a Vou Deixar que Você se Vá ( sucesso do Música Diablo de 1996 ), que também é causadora de um frisson muito grande na plateia com direito a Thedy Corrêa prolongar a canção, enquanto regia nossa atuação nas palmas e em que percebi efeitos que levaram a um breve flerte com o U2.

    "É o seguinte...para tudo... para tudo" diz Thedy Corrêa olhando para seus companheiros de banda e continua: "o Nenhum de Nós vai introduzir uma prática contra a burocracia nos shows. O que acontece... neste momento a gente ia sair do palco, ia apagar a luz, aí vocês iam pedir para voltar, a gente tá abolindo isso, assim como tem o 'Fake News', tem o 'Fake Bizz', Osvaldo nosso iluminador vai ajudar nisso, a gente apaga totalmente a luz do palco, faz de conta que a gente saiu." E de fato as luzes são apagadas e ele prossegue: "faz de conta que a gente saiu e vocês começam a pedir... Mais um... Mais um...", sendo prontamente atendido pelos atentos fãs. Não contente, Thedy Correa complementa seu discurso: "e aí ascende a luz, estamos de volta sem perder tempo de volta para o show... muito obrigado!!!!" Vale afirmar que este padrão já é praticado há anos por Marcelo Nova, porém, não com esta elegância do vocalista do Nenhum de Nós, pois, sabemos que Marcelo Nova é mais sarcástico. 

Duas palavras

    Entretanto, ao invés de já tocarem a primeira música do bis, Thedy Corrêa disse que vai confabular com os seus colegas, pois, tem uma sugestão para dar a eles e então declarar entre conhecidíssimos dedilhados: "A gente ia tocar uma música, mas, vai tocar outra, é muito boa também e é a nossa maneira de homenagear esse espírito que tem aqui essa cidade durante o Rock In Lago, o espírito do Rock, o espírito do Rock Brasileiro, que a gente sabe que existe uma figura que personifica tudo isso, existe um cara sem o qual não existe show de Rock no Brasil, aconteça o que acontecer. Em um determinado momento do show vem alguém lá do fundo até a frente do palco, em geral essa pessoa tá um pouco alcoolizada, em geral essa pessoa se alcoolizou porque ela tá muito emocionada".

    E nós ouvindo este verdadeiro hilárico discurso e recorrente nos shows começamos a gargalhar e Thedy Corrêa continua: "Aí... ela vem aqui na frente do palco, quase chorando, as lágrimas que essa figura pode ter, essa pessoa fala duas palavras, as duas palavras tem o mesmo número de letras, a primeira é um verbo e a segunda é o nome desse cara, então a gente vai fazer o seguinte, nós vamos invocar... como se fosse mágica... com as mãos para o alto o espírito desse cara e quando eu contar até três vocês vão gritar o nome desse cara..."

    E, além de rir bastante com a história, obedecemos fielmente e gritamos: "Toooocaa Raauuuull" e o Nenhum de Nós apresentou uma versão magnífica da inspiradora Tente Outra Vez, uma das mais bonitas letras do Rock e das canções do inigualável Raul Seixas, que cantamos verso por verso com o que ainda restava de nossas gargantas, de forma que o mestre Raulzito lá do alto olhando para nós no Rock In Lago provavelmente sorriu satisfeito e nos abençoou.

Espetacular

    Para encerrar Thedy Corrêa comenta um pouco da história da banda ao dizer: "há trinta anos atrás, uma banda de Rock começou em uma garagem em Porto Alegre, sonhando em transformar o mundo em um lugar melhor de se viver com a força de suas canções. Passados trinta anos, a gente continua acreditando que a nossa música tem esse poder, então uma canção que começou tudo e que de alguma maneira simboliza nossa vontade de transformar esse mundo em um lugar melhor de viver. Se perguntassem, se existe essa canção... ela começa assim..."

    E logo nos primeiros riffs sentimos o incêndio de suas notas e melodias atravessarem nossas células e correspondemos pulando, cantando e estourando de contentamento com o hit do primeiro álbum deles, que foi a Camila, Camila, cuja letra reflete um problema que ainda é recorrente no Brasil e mais em evidência ainda comparado quando foi gravada. Nos acordes finais eles nos agradecem sabendo que nos deixaram em êxtase e veem à frente para se despedirem de uma noite que certamente ficará marcada na história da cidade mineira, que viveu um dos seus mais memoráveis shows.

    Romantismo, Rock'n'Roll, técnica, habilidade, carisma, discursos animados, carisma gigante com a plateia e canções que marcaram a vida da maioria, se fosse resumir este show do Nenhum de Nós em pouquíssimas palavras definiria assim, porém, os detalhes estão todos acima e que bom que o VIII Rock In Lago nos proporcionou tudo isso.

Set List do Nenhum de Nós

1 - Sangue Latino
2 - Eu Não Entendo
3 - O Astronauta De Mármore
4 - Uma Vida Ordinária
5 - Sobre o Tempo
6 - Dança do Tempo
7 - Despliega
8 - Fã de Faith No More
9 - Amanhã ou Depois
10 - Julho de 83
11 - Obsessão
12 - De música Ligera
13 - Foi Amor
14 - Você Vai Lembrar de Mim
15 - Paz e Amor
16 - Vou Deixar que Você Se Vá
17 - Eu Caminhava
18 - Tente Outra Vez
19 - Camila, Camila

Clique aqui e confira uma galeria com 150 fotos do shows do Nenhum de Nós e do Flor de Lótus no VIII Rock In Lago em Jacutinga/MG

T-Ale

    Depois de um show de tamanha magnitude ficaria difícil para a banda seguinte manter a vibração em alta e obviamente, que a grande maioria do público foi embora, porém, o quarteto T-Ale, que é formado por Cleiton Ale, Cleber Ale, Adriano Ale e André Brito, aliou seu bom humor com vários clássicos do Rock e aproveitaram a oportunidade para divertir mesmo os restantes com suas brincadeiras. Enquanto eles começavam o seu show, eu aproveitei a chance para ir conversar rapidamente com os músicos do Nenhum de Nós ( assim como muitos outros também ), além de tirar aquela foto com a banda de recordação.

    E com seu estilo despojado, eles começaram com a sua versão de Another Brick In The Wall do Pink Floyd, que misturou com a Atirei o Pau no Gato nos moldes que o impagável Falcão realizou. E a galera gostou e participou por mais incrível que pareça, lógico, que em menor número comparado ao público durante o Nenhum de Nós, pois, muitos que eram de outras cidades foram embora. Mulher de Fases do Raimundos foi muito bem recebida e o jeitão fanfarrão do vocalista foi capturando o público. Do Ira! dispararam a Dias de Luta e logo depois, uma dupla do Ramones com a Pet Sematary e a I Wanna Be Sedated, canções que por serem bastante conhecidas são sempre bastante bem repercutidas na plateia, mesmo que executando alguns trechos das citadas canções.

    E o T-Ale sempre abre para os fãs pedirem músicas, como se fossem uma Jukebox, porém, a seguinte foi a Jesus numa Moto, que é uma bela canção da famosa dupla Sá e Guarabyra. A ótima Louco Melo do cantor de Varginha/MG Ventania foi lembrada e contou com uma boa versão feita pelo T-Ale, que convocaram os mineiros para cantarem com eles. Ela Roubou Meu Caminhão do Matanza deu aquela saudade de ver um show da banda carioca, que estará encerrando suas atividades após 22 anos de sucesso.

    Eles quase colocaram fogo no VIII Rock In Lago quando começaram a tocar de Hoje do Camisa de Vênus em uma versão praticamente Punk, mas, pena que ela foi interligada com trechos de Ace Of Spades do Motörhead. Digo isso, porque estes dois clássicos deveriam terem sido tocados inteiros, mas, a proposta do T-Ale é justamente essa. Entretanto, até que eles aguentaram bem a missão de executar uma música que detém tanta responsabilidade como esta última e a galera demonstrou que gostou.

    Uma coisa é certa, o T-Ale não tem medo de mandar esta ou aquela música, eles simplesmente começam e vão em frente, como foi o caso de Killing In The Name do Rage Against The Machine, que particularmente prefiro a versão dos meus amigos do Garage Machine ( além, obviamente da original ). Outro exemplo deste destemor do quarteto ficou explicitado na versão de Areals do System Of a Down, que deu sequencia ao show, porém, não foi tocada inteira.

    Fear Of The Dark do Iron Maiden também foi lembrada por eles, mas claro, que esta não seria tocada na sua totalidade, até porque não é das canções mais simples dos ingleses ( aliás, te pergunto... o Iron Maiden tem canções simples? ), mas, foi o suficiente para que nossos corações metálicos lembrassem dos shows da donzela que fomos e das centenas de audições desta música. E se tocaram Iron Maiden, bem, o Metallica também deveria estar no set não é? E estava, pois, o T-Ale relembrou de trechos de Enter Sandman dos norte-americanos para que muitos pescoços fossem agitados. O detalhe é que o vocalista nestas músicas utilizava um violão.

    Outra conhecida e pesada foi a Chop Suey do System Of a Down, que no formato "T-Ale" ficou um tanto que diferente da original, mas quem se importava nesta altura do campeonato? Creio que ninguém, valia a curtição do show em um clima bem de festa Rock'n'Roll mesmo. E falando nisso, Rock'n'Roll All Nite do KISS trouxe esta atmosfera ao Rock In Lago.

    Atendendo aos pedidos executaram a Psycho Killer do Talking Heads e aí o vocalista mostrou seu estilo brincalhão ao fazer várias caretas enquanto canta seus versos, além de alguns gritos estranhos. E a 'doidera' prosseguiu com a Seven Nation Army do The White Stripes alcançando muitas palmas dos presentes.

    E após uma conversa mais - digamos - 'áspera' entre o vocalista e o guitarrista  sobre a forma física do primeiro, o T-Ale ousa com pedaços de Why Don't You Get a Job do The Offspring e aí pergunta: "o que não era isso... humm então segura aí!!!" e faz o medley com Basket Case do Green Day. A troca de 'gentilezas' entre os dois continua quando o vocalista fala que andou por Los Angeles e surfava por lá simulando sua performance na prancha e guitarrista questiona: "que jeito com essa barriga?". Com esta deixa, The Other Side do Red Hot Chilli Peppers foi exibida e fez a galera cantar o refrão com eles devidamente animada. As viagens pelos Estados Unidos segundo o vocalista foi em frente e ele disse que caminhou até Seattle quando colocou sua blusa de flanela xadrez, ou seja, uma surreal história para que Alive do Pearl Jam também estivesse no set list do T-Ale.

    Do Cranberries, banda que perdemos sua vocalista no ano passado, eles tocaram o sucesso Zombies, que é uma canção altamente infectante e fez o público participar todo contente com o quarteto. Nesta linha de hits do Rock dos anos 90, a próxima do set foi a Numb do Linkin Park, cujo vocalista Chester Bennington também nos deixou no último ano. Boas escolhas que não deixam de serem homenagens aos seus criadores. Pelo jeito, o T-Ale gosta desta galera mais alternativa, pois, outra música de sua apresentação foi a All The Small Things do Blink 182.

Participações

    Em seguida, com a bela mineira Jackie do Friends With Jack nos vocais, o T-Ale nos mostra sua versão para o clássico Highway To Hell do AC/DC e cravo aqui... a guria canta muito bem, sabe se portar no palco,  passa muita sensualidade e mostrou a potência de sua voz. Em mais outra participação em seu show, o T-Ale convoca o organizador do evento Rodrigo Tuiaya para cantar a lenta Pais e Filhos, que deu uma boa acalmada no show, porém, assim como o Legião Urbana fez no álbum Música para Acampamentos, eles também conectaram esta música a Stand By Me na versão do John Lennon. Ainda com o Rodrigo Tuiaya nos vocais, o T-Ale tocou a Bete Balanço do Barão Vermelho e também a Adivinha o Quê do Lulu Santos caracterizando ainda mais o ambiente de festa neste show do quarteto paulistano.

    Com o Língua nos vocais tivemos a versão de Roadhouse Blues, onde ele e o vocalista do T-Ale foram dividindo os versos deste clássico do The Doors, embora, um pouco mais de peso nos vocais do que o normal tenha sido aplicado por eles, mas tudo bem... tá valendo... é festa. A seguinte foi provavelmente a maior ousadia do show do T-Ale, ainda bem que avisaram: "a gente pode tocar do nosso jeito?" e desta forma Tom Sawyer ecoou no palco do VIII Rock In Lago. Este hino do Rush eu concordo que não é fácil deixá-la como o Power Trio registrou no disco Moving Pictures.

    Eles agradecem a oportunidade a todos, avisam que está no final do show e arriscam na execução de Tears Of The Dragon, mas, aí olha alcançar as notas que Bruce Dickinson consegue em sua voz não é para qualquer um, mas valeu a tentativa. Foi um show totalmente descompromissado e com a clara intenção de soar mais hilário que técnico e Rock'n'Roll também é isso... é festejar com os amigos e amigas.

    Os números oficiais do VIII Rock In Lago dão conta de 7.000 pessoas, 3 toneladas de alimentos e também R$ 7.000.00 arrecadados com o ingresso solidário doados para a Santa Casa de Misericórdia de Jacutinga/MG, sendo que sabemos que a grande parte disso foi obtida nesta noite de sábado com a presença do Nenhum de Nós, que comprova o sucesso do festival, aumenta o desafio da organização para o próximo ano e foi a realização de um sonho meu e de muitos dos presentes ao conferir o show destes gaúchos.

Texto e Fotos: Fernando R. R. Júnior
Setembro/2018

Set list do T-Ale

1 - Another Brick In The Wall / Atirei o Pau no Gato
2 - Mulher de Fases
3 - Dias de Luta
4 - Pet Sematary / I Wanna Be Sedated
5 - Jesus numa Moto
6 - Louco Melo
7 - Ela Roubou Meu Caminhão
8 - Hoje / Ace Of Spades
9 - Killing In The Name / Areals
10 - Fear Of The Dark
11 - Enter Sandman
12 - Chop Suey
13 - Rock'n'Roll All Nite
14 - Psycho Killer / Seven Nation Army
15 - Why Don't You Get a Job / Basket Case
16 - The Other Side
17 - Alive
18 - Zombies
19 - Numb
20 - All The Small Things
21 - Highway To Hell
22 - Pais e Filhos / Stand By Me
23 - Bete Balanço / Adivinha o Quê
24 - Roadhouse Blues
25 - Tom Sawyer
26 - Tears Of The Dragon

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