Go Ahead And Die - Go Ahead And Die
11 Faixas - Shinigami Records/Nuclear Blast - 2021

    A importância da família Cavalera para o Heavy Metal brasileiro e mundial é algo incomensurável, afinal, desde que Max e Iggor Cavalera criaram o Sepultura e nos brindaram com verdadeiras e influentes pérolas do Metal, como são os casos explícitos em álbuns como Arise, Chaos A.D. e Roots, que ditaram inclusive as regras para muitos nomes que vieram depois. Fora do Sepultura, os irmãos Cavalera criaram o Cavalera Conspiracy revisitando suas canções clássicas de seus tempos de Sepultura, enquanto que Max Cavalera tem o Soulfly, Killer Or Be Killed e o Nailbomb.

    Achou muito? Bem... Max Cavalera não... E junto de seu filho Igor Amadeus Cavalera ( vocais do Healing Magic ), ele surpreendeu a todos e anunciou a banda Go Ahead And Die, que surgiu durante a pandemia após uma viagem de pai e filho, onde ambos assistiram muitos filmes de terror e claro, sempre regados à muito Death e Thrash Metal Old School. Além dos dois, o Go Ahead And Die conta com Zach Coleman ( Black Curse e Khemmis ) na bateria.   

    Sobre os motivos da origem desta nova banda Max Cavalera explica: "Queríamos ter essa sensação que é quase um pouco perigosa, um pouco tensa. Não estávamos preocupados em sermos técnicos ou em fazer as coisas soarem 'limpas'. Nada disso. O objetivo era liberar o que eu gosto de chamar de 'riffs do homem das cavernas'. Não é sofisticado. É cru e brutal".

    Um fato curioso a ser mencionado nesta resenha é sobre o nome da banda, cuja tradução em japonês é a que mais se aproxima a foda-se é a com 'vá em frente e morra', que foi compartilhada com Igor Amadeus Cavalera em japonês e ele sugeriu ao pai que escolhessem então sua tradução para o inglês, que é definida por Max Cavalera como: "É realmente um soco na cara e adoro a reação das pessoas".

    Em se tratando dos Cavalera lógico que a temática do disco está centrada nos males sociais atuais tais como: pandemia, fanatismo religioso, policiais desonestos, políticos corruptos, abusadores e destruidores do meio ambiente. Quanto a esta temática Max Cavalera comenta: "Queríamos que as letras fossem um grande foda-se para tudo o que está acontecendo agora. Igor também escreve livros, coisas do tipo Stephen King. Ele tem uma imaginação selvagem. Ele é um garoto selvagem. Foi incrível pegar seu cérebro enquanto trabalhávamos nas letras juntos. Às vezes, eu fazia a coisa típica do Max, algo simples, e ele mudava as palavras e as tornava muito melhores".

    E o já não tão garoto elogia a liberdade dada pelo pai ao dizer: "Ele é uma figura tão importante. É fácil para qualquer um se sentir ofuscado por ele em qualquer banda. Ele tem um som e uma aura imponentes. Fiquei muito feliz que ele ficou um pouco atrás e me deixou enlouquecer com Go Ahead And Die. Eu sinto que as pessoas serão capazes de ouvir o que estou trazendo para a mesa com ele meio que apoiando. A fusão dessas coisas saiu muito bem e foi muito legal da parte dele me deixar tomar as rédeas".

    Max comenta sobre a gravação de Go Ahead and Die: "Eu tenho uma instalação de gravação antiga que usei até o Chaos A.D., a mesma que usei para os demos do Killer Be Killed, para tudo. É um aparelho portátil de 12 canais e uma bateria eletrônica. Eu ia lá várias vezes por semana para sair com Igor, escrever música, fazer churrasco e assistir aqueles filmes antigos."

    E ele continua: "Eu não queria que isso fosse escrito como um disco da 'velha escola' para então ser gravado de uma forma moderna. Simplesmente sem rodeios. Fui eu que bati o martelo sobre isso desde o início. Tipo: 'Cara, isso parece uma merda e está incrível. Se eu escrevesse algo estranho, eu tocaria para eles de novo".

    Quem cuidou do processo de gravação foi Charles Elliot, que é guitarrista do Abysmal Dawn. Já a mixagem e a  masterização ficou por conta de Arthur Rizk ( Power Trip, Cro-Mags e Cavalera Conspiracy ). Por fim, Max Cavalera reflete: "Passar parte do verão fazendo esse disco com o Igor foi demais. Foi ótimo. Este projeto me traz de volta ao Max de 16 anos. Estou tão orgulhoso do Igor, cara. Ele estava realmente focado. Foi a melhor maneira de passar um verão do COVID-19. Fazer esse álbum foi realmente o que me manteve são".

    Antes de contar das músicas deste Go Ahead And Die, que saiu no Brasil pela parceria da Shinigami Records com a Nuclear Blast, vale apontar que a capa desenhada por Stweart Casting mostra a cena de um tumulto envolvendo policiais esmagando uma pessoa com outra protestando em meio ao caos... Isso te lembra alguma coisa cara o leitor(a)??? Como caso que despertou o movimento Black Lives Matter após a violenta morte de George Floyd nas mãos da força policial da cidade de Mineápolis. Bem vamos ao álbum....

    O primeiro impacto certeiro acontece com a explosiva Truckload Full Of Bodies em que a ira característica dos Cavalera aparece com toda potência e crueza que é possível obter metralhando assim o ouvinte em partes que notamos aquele Thrash oitentista com outras que exibem Death Metal resultando em uma música em que a reação que temos é de querer 'banguear' imediatamente. O disco segue com Toxic Freedom, que começa com toques ríspidos feitos por Igor Amadeus Cavalera em seu baixo e também com toda a agressividade contida nos vocais de Max Cavalera em uma linhagem quase Punk até descambar em um ritmo acelerado e devidamente mortífero do jeito que os fãs adoram.   

    A avalanche sonora presente na pulverizante I.C.E. Cage nos coloca diante de um ritmo devastador e de vocais consideravelmente furiosos, que te fazem questionar onde eles buscam tanta raiva para despejar tudo isso em nossos ouvidos... seriam dos filmes que viram juntos? O clima Death/Thrash Old School continua com firmeza em Isolated/Desolated e esta remete aos primórdios do Sepultura nos tempos em que a banda era demasiadamente áspera, só que desta vez a faixa é voltada para um Punk Rock Extremo de momentos cadenciados e vocais dotados de incontáveis níveis de violência.

    A quinta do cd é a estranha - ao menos em sua introdução - Prophet's Prey, digo isso por conta das falas desconexas que parecem uma pregação, porque depois, a canção percorre em andamento Thrash Metal visceral deveras aniquilador com viradas impressionantes te levando a socar o ar em seus trechos cadenciados, que contém todo ódio proferido por Max Cavalera ao berrar seus versos.

    E o Power Trio ataca com destreza com a fulminante e veloz Punisher em que... se objetivo era de apresentar uma faixa de cólera imensa e incondicional, eles conseguiram... e saiba esta música ao vivo será motivo para que as rodas mais fortes possíveis explodam e o mais incrível disso tudo é como a música é envolvente, assim como o seu final totalmente inesperado.

    Para a estarrecedora El Cuco temos uma cadenciada e consideravelmente violenta composição com os dois - pai e filho - vociferando com uma brabeza sem limites e no meio da música, eles proporcionam mudanças de andamentos que aceleram e dinamizam a sua criação, e isso, sem citar os toques de Zach Coleman em sua bateria no retorno das suas linhas cadenciadas.

    O título da seguinte é uma abreviação do nome da banda, e em G.A.A.D. o trio nocauteia através da ferocidade de seus vocais e com sua destruição ocorrendo de forma cadenciada ao passar de seus minutos sempre focando na sua interminável cólera, que eleva-se para um final veloz em que não será deixado nenhum pescoço no lugar e antes de encerrar retorna ao seu padrão impetuoso e cadenciado, que me lembrou até de um War Metal como os brasileiros do Holocausto War Metal fazem.

    Em um misto de Punk com Thrash, o Go Ahead And Die envia aniquiladora Worth Less Than Piss, que começa detonando tanto na sua parte instrumental quanto nos seus vocais, que são gritados totalmente sem piedade e depois desacelera um pouco, porém, nunca diminuir a sua ira. A penúltima chega em um tom macabro e que abre um intenso e acelerado Thrash Metal cheio de vocais insanos que fazem de ( In The ) Slaughterline ser uma das mais avassaladoras faixas deste álbum, onde não são poupadas as fronteiras de sua violência com direito a linhagens instrumentais cativantes e feitas com muita habilidade pelo trio, sendo que é impossível destacar somente um deles.

    A última desta hecatombe sonora é a devastadora Roadkill, que aparentemente é sinistra, arrastada, repleta de vocais raivosos e insalubres e pronta para te deixar impressionado caro leitor(a) do Rock On Stage com a tamanha ferocidade exalada a cada segundo pelo Go Ahead And Die, que só para ser melhor ainda, a canção acelera em seu final, exibe uma violência impraticável e termina bastante sombria como começou.

    Que o confinamento e o impedimento de fazer a maioria do que gostamos de fazer tem como frutos a insatisfação, o ódio, a raiva... é até compreensível, mas o que Max Cavalera, Igor Amadeus Cavalera e Zach Coleman nos proporcionaram com este primeiro álbum do Go Ahead And Die foi a melhor forma expelir todos estes sentimentos ruins para fora através das impactantes canções em um dos melhores álbuns do ano de 2021, que traduz o que é um verdadeiro de Thrash Metal Old School. Fãs de Sepultura, Napalm Death, Extreme Noise Terror, Discharge, Terrorizer.... sintam-se representados nesta obra-prima de DNA brazuka.
Nota: 10,0.

Por Fernando R. R. Júnior
Janeiro/2022

 
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